quarta-feira, 22 de março de 2023

Um momento para esquecer

Eu me lembro que foi em uma quinta-feira com seus 39 graus, e eu estava caminhando em direção à faculdade com o entusiasmo de alguém que está prestes a extrair os próprios dentes. Aquele era o dia mais temido da minha vida academica: minha primeira aula de psicanálise. Como alguém que tem horror a Freud, eu sabia que essa experiência seria, no mínimo, dolorosa.

Eu já tinha lido bastante sobre Freud, mas nunca havia estudado em conjunto, e aí estava eu, prestes a enfrentar o monstro de perto. Sentando-me na sala suado e com o coração na boca, me preparei para ouvir os conceitos freudianos que tanto detestava.

A professora entrou na sala e, devo dizer, ela era encantadora. Loira, jovem e linda - o tipo de pessoa que a vida sempre parece abençoar com privilégios, como se sua beleza da Disney fosse um passe livre para o sucesso. Se alguém pudesse me convencer a aceitar a psicanálise, essa pessoa seria ela, mas eu sabia que haveria luta e seria árdua.

Logo, a aula começou a tomar a forma de uma sessão coletiva de (pseudo)terapia muito louca, onde todos falavam sobre suas vidas como se estivessem compartilhando suas fantasias inconscientes mais secretas. Meus colegas pareciam zumbis enfeitiçados, consumidos pela pseudociência freudiana que a professora lhes servia aos montes. Eu observava, cada vez mais confuso e incrédulo, enquanto eles se aprofundavam em teorias arcaicas que mal funcionariam para analisar a mente de um hamster, quanto mais a mente humana.

A cada aula, sentia que estava afundando cada vez mais em um poço de pensamentos questionáveis e teorias sem sentido. Eu me perguntava como uma disciplina tão arcaica ainda estava sendo ensinada, e por que meus colegas estavam tão dispostos a aceitar tudo aquilo sem questionar. Talvez fosse a influência da professora privilegiada, ou talvez fosse a curiosidade mórbida de ver até onde isso iria. Nada disso, eu sabia a resposta, mas deixei pra lá.

Finalmente, o semestre acabou, e eu saí daquela sala com a sensação de ter sobrevivido a um pesadelo freudiano. A psicanálise, pelo menos para mim, tinha se tornado uma mistura de comédia e horror - uma experiência que eu nunca esqueceria, mas também nunca repetiria.

Agora, sempre que reflito sobre aquele semestre, eu me pergunto: será que sobrevivi a um pesadelo orquestrado por um Freud sádico e louco? Imagino Freud, em algum lugar, esboçando um sorriso maléfico ao ver o lado cômico que encontrei na situação, pronto para atacar aqueles que discordam dele. Afinal, como ele mesmo diria, às vezes um charuto é apenas um charuto - e às vezes, uma aula de psicanálise é apenas uma aula de psicanálise, mesmo que pareça um episódio de um filme de terror sobre zumbis enfeitiçados por pseudociência. Saí dessa experiência com uma alma que tive que deixar para trás e um pouco manco, mas, pelo menos, sobrevivi aos caprichos de um Freud enlouquecido e implacável.

Ensinar Psicanálise na Faculdade: É Ensinar Pseudociência de Baixo Custo

Ei, você aí, já ouviu falar da resistência das faculdades brasileiras em continuar ensinando psicanálise nos cursos de Psicologia? Apesar de ser considerada uma pseudociência, a psicanálise segue firme e forte nas salas de aula. E sabe o que é mais intrigante? Uma das principais razões para essa persistência é o baixo custo associado ao ensino dessa matéria. Vamos mergulhar nesse controverso tema e entender por que é tão difícil derrubar a psicanálise do pedestal em que ela nunca deveria estar.


Psicanálise: o que é e por que causa polêmica?

A psicanálise, criada por Sigmund Freud no final do século XIX, é uma abordagem terapêutica baseada na ideia de que nossos problemas psicológicos estão enraizados em conflitos inconscientes. A teoria freudiana é marcada pela presença de conceitos como o complexo de Édipo, a repressão e a libido. No entanto, a falta de evidências científicas para sustentar muitos dos conceitos e métodos da psicanálise a torna uma pseudociência (Popper, 1959).


Por que as faculdades brasileiras ainda ensinam psicanálise?

É verdade que a psicanálise tem nuances próprias no Brasil (como já expliquei em outro texto), mas isso não justifica sua permanência nos currículos de Psicologia. Um dos principais motivos é o baixo custo associado à matéria. A psicanálise não exige conhecimento prático para ser ensinada e não requer investimento em laboratórios ou equipamentos sofisticados. Basta um professor, uma lousa e um punhado de textos freudianos para "fazer a festa"!


Críticas à psicanálise desde os tempos de Freud

As críticas à psicanálise não são novidade. Desde os tempos de Freud, ele foi acusado de ser um "picareta". Em 1913, o filósofo Karl Jaspers já apontava a falta de rigor científico na obra freudiana, destacando a ausência de critérios objetivos para a verificação de suas teorias (Jaspers, 1913). Outros autores, como o filósofo da ciência Karl Popper, também destacaram que a psicanálise é infalsificável e, portanto, não pode ser considerada uma teoria científica (Popper, 1959).


A necessidade de mudança

As faculdades brasileiras precisam abandonar a resistência em ensinar psicanálise e abraçar abordagens terapêuticas baseadas em evidências, como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e a Psicologia Positiva. Essas abordagens têm fundamentação científica sólida e são eficazes no tratamento de diversos transtornos psicológicos (Hofmann et al., 2012).

Basta de insistir no ensino da psicanálise nas faculdades de Psicologia no Brasil! Esse cenário me faz lembrar do filme corenano "Parasita", onde a família menos abastada se infiltra na vida da família rica de maneira sorrateira e oportunista. Assim como no filme, a persistência da psicanálise no curso de psicologia é como um parasita que insiste em se infiltrar no campo da Psicologia, apesar de sua falta de fundamentação científica.

É hora de mudar, de atualizar os currículos e abrir espaço para abordagens terapêuticas baseadas em evidências científicas sólidas e comprovadamente eficazes. Manter a psicanálise nos cursos de Psicologia é como permitir que esse "parasita" continue se alimentando dos recursos e do prestígio da área, prejudicando a formação de profissionais competentes.

Professores, estudantes e psicologos precisam se unir, assim como os personagens do filme "Parasita" se unem para enfrentar a situação, para promover a ciência e expulsar a pseudociência de nossas instituições de ensino. Só assim poderemos garantir um futuro melhor para a Psicologia e para os profissionais que dela farão parte.


Referências:


Hofmann, S. G., Asnaani, A., Vonk, I. J., Sawyer, A. T., & Fang, A. (2012). The efficacy of cognitive behavioral therapy: A review of meta-analyses. Cognitive Therapy and Research, 36(5), 427-440.

Jaspers, K. (1913). Allgemeine Psychopathologie: ein Leitfaden für Studierende, Ärzte und Psychologen. J. Springer.

Popper, K. R. (1959). The logic of scientific discovery. Hutchinson.

Pseudociências nas Faculdades de Psicologia no Brasil: Falta de Interesse e Necessidade de Intervenções

O ensino de pseudociências nas faculdades de Psicologia no Brasil é uma preocupação crescente para profissionais, acadêmicos e estudantes da área. Este fenômeno não só afeta a qualidade da formação de futuros psicólogos, mas também a percepção pública da Psicologia como uma ciência rigorosa e baseada em evidências. Neste texto, analiso a persistência do ensino de pseudociências nas instituições de ensino superior brasileiras e a falta de interesse dessas instituições em atualizar seus currículos de maneira ética. Além disso, discutiremos as responsabilidades dos estudantes e proporemos intervenções para combater esse problema.

Pseudociências são teorias ou práticas que se apresentam como científicas, mas que não possuem fundamentação empírica, metodologia rigorosa ou validação por pares (Shermer, 1997). No contexto da Psicologia, algumas teorias, como a Programação Neurolinguística (PNL) e a Psicanálise, podem ser consideradas pseudociências.

A presença de pseudociências no ensino da psicologia pode ser atribuída a várias causas, entre elas: falta de rigor científico, interesses comerciais e inércia acadêmica (Lilienfeld et al., 2012). Por exemplo, muitas instituições de ensino ainda oferecem cursos baseados em teorias obsoletas ou refutadas, como a Grafologia e a Hipnose Ericksoniana, sem fornecer a seus alunos a devida contextualização histórica e científica (Benuto, 2015).

As instituições de ensino têm a responsabilidade ética de fornecer um ensino atualizado e baseado em evidências, mas muitas vezes não investem em treinamento e atualização do seu corpo técnico e de seus professores. Isso resulta em um ensino desatualizado e, em alguns casos, a promoção de pseudociências. Além disso, é necessário um controle mais rigoroso por parte dos órgãos reguladores do ensino superior, como o Ministério da Educação (MEC) e o Conselho Federal de Psicologia (CFP), no que se refere à qualidade dos cursos oferecidos.

A responsabilidade, no entanto, não recai apenas sobre as instituições. Os estudantes de Psicologia também têm a responsabilidade de buscar conhecimento científico e desenvolver habilidades críticas para discernir entre teorias válidas e pseudociências. Eles devem se engajar ativamente em seu processo educacional, buscando atualizações e conhecimento de fontes confiáveis.


Intervenções sugeridas:

  1. Revisão curricular: As instituições de ensino devem rever periodicamente seus currículos, eliminando conteúdos pseudocientíficos e atualizando os cursos com base nas melhores práticas e evidências científicas.
  2. Capacitação docente: As faculdades devem investir na formação continuada de seus professores, incentivando a participação em eventos científicos e cursos de atualização.
  3. Fiscalização dos órgãos reguladores: O MEC e o CFP devem exercer maior fiscalização na qualidade dos cursos de Psicologia, assegurando que sejam baseados em evidências científicas e de acordo com as diretrizes éticas e profissionais.
  4. Educação para o pensamento crítico: Os estudantes devem ser estimulados a desenvolver habilidades de pensamento crítico e avaliação de evidências, a fim de discernir entre teorias válidas e pseudociências.
  5. Fomentar a pesquisa: As instituições de ensino devem incentivar a realização de pesquisas científicas de qualidade, promovendo o diálogo entre a teoria e a prática e possibilitando o avanço do conhecimento na área da Psicologia.
  6. Inclusão de tópicos sobre pseudociências nos currículos: As faculdades podem incluir tópicos específicos sobre pseudociências nos currículos, visando fornecer aos estudantes as ferramentas necessárias para identificar e combater práticas não embasadas cientificamente.

A persistência do ensino de pseudociências nas faculdades de Psicologia no Brasil é um problema que demanda a atenção e o engajamento tanto das instituições de ensino quanto dos estudantes. A promoção de um ensino de qualidade, baseado em evidências e atualizado, é fundamental para garantir a formação de profissionais competentes e a consolidação da Psicologia como ciência. Através de intervenções eficazes e comprometimento ético, é possível combater a proliferação de pseudociências e contribuir para um ensino superior de excelência na área da Psicologia.



Referências:

Benuto, L. T. (2015). Pseudoscience in psychology. In S. O. Lilienfeld, J. Ruscio, & S. J. Lynn (Eds.), Psychological science under scrutiny: Recent challenges and proposed solutions (pp. 47-62). John Wiley & Sons.

Lilienfeld, S. O., Lynn, S. J., & Lohr, J. M. (2012). Science and pseudoscience in clinical psychology (2nd ed.). Guilford Press.

Shermer, M. (1997). Why people believe weird things: Pseudoscience, superstition, and other confusions of our time. Henry Holt and Company.

quarta-feira, 15 de março de 2023

Opinião: Negação e Ideologia.


Esqueleto ideológico da psicanálise

A negação da ciência é frequentemente uma estratégia ideológica e política adotada por grupos com interesses próprios. Isso ocorre quando esses grupos percebem a ciência e a evidência científica como ameaças aos seus interesses financeiros, políticos ou ideológicos.


No Brasil, a psicanálise apresenta várias facetas, com diversas escolas e abordagens teóricas. Contudo, é possível identificar certos elementos que compõem o esqueleto ideológico da psicanálise no país.


A forte influência de Freud é um desses elementos. A psicanálise brasileira foi introduzida por psicanalistas europeus, especialmente alemães, que trouxeram consigo as obras de Sigmund Freud. Conceitos freudianos como o inconsciente, o complexo de Édipo, a transferência e a resistência formam a base da psicanálise no Brasil.


Outra característica é a abertura à diversidade cultural, fruto da própria cultura brasileira marcada pela pluralidade étnica, cultural e social. A psicanálise brasileira incorpora questões sociais e culturais em sua teoria e prática, valorizando a análise interminável e permitindo uma exploração mais profunda da subjetividade do paciente.


A interdisciplinaridade é outra tendência na psicanálise brasileira, dialogando com disciplinas como sociologia, antropologia, filosofia e literatura. A teoria da psicanálise de grupo é um exemplo dessa interação, combinando teoria psicanalítica e teoria das organizações.


Além disso, a psicanálise brasileira, devido à sua inclinação crítica às estruturas sociais, busca compreender e denunciar as raízes psicológicas da desigualdade social, opressão e exclusão. Essa crítica às estruturas sociais é uma resposta às injustiças produzidas pelo capitalismo, que explora a classe trabalhadora em prol do lucro da classe dominante. Nesse sentido, a psicanálise se alinha com a luta por justiça social e pela transformação das relações sociais em uma base igualitária. A teoria da psicanálise aplicada é uma forma de aplicar a teoria psicanalítica na análise das questões sociais e políticas, como a luta por direitos trabalhistas e a busca por uma sociedade mais justa e igualitária.


Entretanto, é importante ressaltar que há uma falta de rigor conceitual na psicanálise. Essa ausência pode ter consequências sérias em várias áreas do conhecimento, especialmente quando há uma tendência a aplicar conceitos de uma disciplina em outras sem o devido cuidado e critério. Isso pode levar à distorção dos conceitos originais, perda de significado e validade, e dificuldade para a comunicação entre especialistas. Portanto, é fundamental que haja critérios claros e rigorosos para a participação em áreas fora da própria disciplina, a fim de evitar equívocos.


Na psicanálise, a falta de rigor conceitual pode ser percebida de diversas maneiras. Uma delas é quando os psicanalistas usam termos como "ego", "superego", "inconsciente" ou "transferência" de maneira imprecisa ou sem clareza conceitual, o que pode levar a mal-entendidos e equívocos na comunicação entre os profissionais. Outro exemplo é quando os psicanalistas aplicam conceitos freudianos de forma dogmática, sem levar em consideração os avanços teóricos e as mudanças na sociedade e na cultura que ocorreram desde a época de Freud.


A falta de rigor conceitual também pode ser observada na maneira como a psicanálise é aplicada em outras áreas do conhecimento, como educação, cultura, política e justiça social. Quando os psicanalistas aplicam seus conceitos e técnicas em contextos que vão além de sua formação original, eles podem acabar distorcendo as teorias e os conceitos originais, tornando-os irrelevantes ou mesmo perigosos.


Por exemplo, a aplicação da psicanálise na justiça criminal tem sido criticada por alguns psicanalistas, pois a teoria e as técnicas psicanalíticas não foram originalmente desenvolvidas para esse contexto específico. Além disso, a aplicação incorreta da psicanálise pode levar a erros na interpretação dos resultados e na tomada de decisões judiciais.


A psicanálise também é frequentemente criticada por sua tendência à autosuficiência e arrogância. A disciplina muitas vezes se autoproclama como uma área autossuficiente, capaz de explicar todos os aspectos da vida humana, ignorando outras perspectivas e teorias. A teoria psicanalítica pode ser vista como uma explicação universal para os fenômenos humanos, que muitas vezes minimiza outras abordagens.


Essa tendência à autosuficiência se manifesta em diferentes aspectos da psicanálise. A disciplina muitas vezes se concentra na análise do indivíduo em detrimento das relações sociais e das estruturas sociais mais amplas, como a economia, a política e a cultura. Além disso, a psicanálise muitas vezes ignora críticas e avanços em outras áreas do conhecimento, especialmente as ciências biológicas e neurocientíficas, limitando e talvez impondo uma visão estreita sobre como a mente humana deve ser compreendida.


A falta de diálogo e troca de informações com outras áreas da psicologia mais científica pode levar a uma visão limitada e desatualizada da psicanálise. Além disso, a falta de rigor conceitual da disciplina pode levar a uma falta de validade científica e empírica. Muitas vezes, a psicanálise utiliza conceitos imprecisos ou mal definidos, o que dificulta a comunicação com outras áreas e pode levar a uma perda de validade e relevância.


Para se atualizar e se tornar relevante, a psicanálise precisa reconhecer a necessidade de validação empírica de suas teorias e conceitos, estar aberta a outras formas de validação, como estudos experimentais e pesquisas quantitativas. Além disso, é importante que a psicanálise reconheça a diversidade de perspectivas e experiências, bem como se beneficie da interação com outras disciplinas para garantir que continue sendo relevante e útil para a compreensão da mente humana.


Em suma, a psicanálise no Brasil possui um esqueleto ideológico complexo e multifacetado, que reflete as influências históricas, culturais e sociais do país. A forte presença de Freud, a abertura à diversidade cultural, a interdisciplinaridade e a tendência crítica às estruturas sociais são aspectos fundamentais da psicanálise no Brasil. No entanto, é crucial abordar as questões de falta de rigor conceitual e a tendência à autosuficiência para garantir que a disciplina continue relevante e eficaz na compreensão e tratamento das questões psicológicas e sociais.


A psicanálise deve buscar um equilíbrio entre suas raízes históricas e a necessidade de se adaptar às mudanças sociais e culturais, bem como aos avanços científicos e tecnológicos. A colaboração com outras áreas do conhecimento e a abertura ao diálogo e à crítica são fundamentais para garantir que a psicanálise continue sendo uma disciplina relevante e útil na compreensão da complexidade da mente humana e das relações sociais.


Para enfrentar os desafios e críticas, a psicanálise no Brasil deve continuar a valorizar a diversidade cultural e a interdisciplinaridade, ao mesmo tempo em que busca rigor conceitual e validação empírica. Além disso, é importante que os profissionais da área estejam dispostos a dialogar com outras disciplinas e a aprender com as contribuições de outras áreas do conhecimento. Somente assim, a psicanálise poderá continuar sendo uma ferramenta valiosa e eficaz para a compreensão e o tratamento dos dilemas psicológicos e sociais enfrentados pelos indivíduos e pelas sociedades em constante evolução.

segunda-feira, 13 de março de 2023

 As memórias são uma parte fundamental de nossa experiência humana. Elas moldam nossas percepções de nós mesmos e do mundo ao nosso redor. No entanto, nem sempre podemos confiar em nossas memórias para nos fornecer uma imagem precisa do passado. Às vezes, as memórias podem ser distorcidas, alteradas ou mesmo completamente fabricadas.

Nos anos 90, houve um aumento alarmante de casos de pessoas que alegavam ter recuperado memórias reprimidas de abusos sexuais na infância. Essas memórias frequentemente envolviam relatos de abuso sexual perpetrado por pais, parentes próximos ou outras figuras de autoridade. Muitas vezes, as memórias foram recuperadas durante sessões de terapia com terapeutas e psicanalistas.

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Um dos principais defensores da prática de recuperação de memória reprimida na década de 90 foi o psiquiatra Lawrence Pazder. Ele escreveu um livro intitulado "Michelle Remembers", que descreveu as supostas memórias reprimidas de abuso sexual em sua paciente Michelle Smith. O livro foi amplamente divulgado e levou a um aumento na popularidade da terapia de recuperação de memória. No entanto, muitos anos depois, o livro foi desacreditado e Pazder foi criticado por sua falta de base científica em suas práticas clínicas..

A psicologa Elizabeth Loftus foi uma das primeiras a investigar e provar cientificamente que as memórias podem ser facilmente distorcidas e manipuladas. Ela realizou uma série de experimentos nos anos 70 e 80, nos quais mostrou que as pessoas podem ser levadas a acreditar em eventos que nunca ocorreram. Loftus também provou que as memórias recuperadas através da terapia psicanalítica eram altamente suscetíveis a distorção e que a técnica podia facilmente criar falsas memórias. Seu trabalho influenciou significativamente a ciência da memória e ajudou a desacreditar a prática de recuperação de memória reprimida.


Na década de 90, a questão das memórias falsas se tornou um tópico de grande interesse na imprensa. Várias reportagens foram publicadas em jornais, revistas e programas de televisão, discutindo o impacto potencialmente devastador das memórias falsas e a prática controversa de recuperação de memória reprimida.

Uma das histórias mais notórias envolvendo memórias falsas na época foi o caso da creche McMartin em Los Angeles, EUA. Em 1983, alegações de abuso sexual foram feitas contra os proprietários da creche por pais preocupados, levando a uma investigação policial de sete anos. No entanto, a investigação não encontrou evidências concretas para apoiar as acusações e, em 1990, todos os acusados foram absolvidos. O caso foi amplamente divulgado pela mídia e muitos argumentaram que as crianças envolvidas no caso haviam sido vítimas de sugestão e pressão para fornecer falsas informações.

Outro caso que ganhou destaque na imprensa foi o de Eileen Franklin-Lipsker, que em 1990 acusou seu pai George Franklin de ter estuprado e assassinado sua amiga de infancia quando ela  tinha 8 anos. Eileen havia supostamente reprimido as memórias do assassinato, mas as recuperou através de sessões de terapia. No entanto, após um julgamento longo e controverso, George Franklin foi absolvido em 1996, e a credibilidade das memórias recuperadas através de terapia psicanalítica foi questionada.

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As técnicas terapêuticas que foram associadas a casos de memórias falsas em torno do abuso infantil incluem a hipnose e a terapia regressiva. Essas técnicas foram amplamente utilizadas por terapeutas na década de 1980 e 1990, especialmente na corrente psicanalítica, para tentar ajudar pacientes que sofriam de transtornos emocionais graves, como ansiedade e depressão.

A partir da década de 1990, muitos psicólogos e terapeutas começaram a se afastar dessas técnicas em favor de abordagens mais baseadas em evidências, como a terapia cognitivo-comportamental. Ainda assim, a psicanálise e outras formas de terapia psicodinâmica continuam sendo amplamente praticadas em todo o mundo, apesar de ter havido um crescente reconhecimento dos riscos associados à recuperação de memórias reprimidas.

É assustador e surpreendente como a terapia de recuperação de memórias e as falsas memórias foram amplamente aceitas nos anos 80 e 90, apesar da completa falta de evidências científicas para apoiá-las. Isso levanta uma série de questões importantes sobre como a sociedade aceita certas ideias sem questionar sua validade e como profissionais da saúde mental podem ser influenciados por crenças populares ou teorias estúpidas. Infelizmente, a falta de rigor científico e o potencial para danos psicológicos em práticas terapêuticas mal fundamentadas não são exclusivos do passado e estão em universidades, artigos cientifícos e por aí vai. Até hoje abordagens psicológicas são promovidas sem uma base sólida em evidências, e alegações de memórias reprimidas e traumas passados ​​são ainda levantadas sem a devida cautela. É importante questionarmos o que nos leva a aceitar certas ideias e práticas reprovadas pelo básico da ciencia, se contiuarmos tendo pressa, continuaremos provocando estragos.

domingo, 12 de março de 2023

MORREU DE SUICIDIO

 

Charles Lucien Léandre - Madame Bovary.



"Medicamentos não fazem as pessoas felizes. 
Eles as tornam insensíveis" 
- Jacques Lacan
 
Acreditava-se que a psicologia e a psicanálise eram ciências objetivas e imparciais, quando na verdade eram construídas a partir de crenças e preconceitos culturais que permeavam a sociedade.

O uso do termo "se matar" para descrever uma pessoa que morreu de suicídio é altamente problemático do ponto de vista da suicidiologia. Esse termo implica que o indivíduo fez uma escolha consciente para acabar com sua vida, ignorando completamente a complexidade das emoções e da saúde mental que levaram a essa decisão.

O termo "se suicidar" não fica atras, por mais que se reconheça que o suicídio é uma ação complexa, muitas vezes influenciada por fatores biológicos, psicológicos e sociais. É importante lembrar que o suicídio não é uma escolha livre e racional, mas sim um resultado trágico de uma série de fatores que podem incluir doenças mentais, traumas, perdas e isolamento social.

O uso do termo "morreu de suicídio" é o unico a ser usado. Isso porque o suicídio é uma causa de morte, assim como doenças ou acidentes. O uso do termo "morreu de suicídio" ajuda a normalizar o reconhecimento de que o suicídio é uma causa real e trágica de morte, em vez de reforçar a estigmatização e o tabu em torno do assunto.

Assim como as religiões, que por muito tempo julgaram e condenaram indivíduos com doenças mentais como possuídos pelo demônio, a psicologia e a psicanálise também contribuíram para o estigma e a desqualificação das doenças mentais (de formas diferente, porém ambas equivocadas por motivos diferentes). Essa visão reducionista influencia muito no tratamento adequado dos transtornos psicológicos e psiquiátricos.


Voltando a origem de onde esses termos saem...

É importante destacar que a abordagem psicanalítica não trata a saúde mental com simplicidade, mas sim como ela bem entende. A psicanálise busca entender o indivíduo em sua teoria, considerando seu passado, suas experiências, seus traumas e seus conflitos internos como pistas para solucionar o presente. Certamente a psicanálise não se opõe à medicina, entretanto tenta aliar seu processo terapeutico (sem qualquer comprovação cientifica) de forma com que ela questione a validade de muitos tratamentos por acreditar que existe uma indutria farmaceutica por trás (mesmo sem provas). Perpetuando assim tantos achismos e desencontros com a ciencia. 

Enquanto "penetras" estiverem julgando e contextando a ciencia sem usarem ciencia para isso, teremos negacionismo e capacitismo.


sábado, 11 de março de 2023

Psicanalise Usurpadora?


Deixe-os em paz; são guias cegos.  
 E se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova. 

– Mateus 15:14 


A psicologia surgiu no final do século XIX na Europa, e foi trazida ao Brasil no início do século XX. Apesar da falta de regulamentação do ensino e da prática, em 1953, inicia-se o primeiro curso superior autônomo de Psicologia, na PUC do Rio de Janeiro (Esch & Jacó-Vilela, 2001; Yamamoto, 2006). Na época, a psicanálise era uma das correntes teóricas mais difundidas no mundo. Por ser o primeiro curso, não existiam professores formados em psicologia, sendo professores formados em outras áreas como direito, filosofia, etc. 

Ao longo do tempo, a psicologia tentou se separar cada vez mais da psicanálise. A distância se deu por divergências teóricas, ideológicas e por falta de embasamento científico na psicanálise. A psicanálise é uma disciplina com métodos e objetivos próprios sem comprovação empírica e não pode ser resumida a uma simples escola psicológica afinal ela por sua vez, deve ser ensinada em cursos específicos, como psicanálise clínica ou terapia psicanalítica, e não como parte da formação em psicologia, não faz sentido algum já que seus defensores negam que ela seja uma ciência ( não se baseia em métodos de verificação empírica) e a psicologia certamente é uma ciência.  

A psicanálise e a psicologia possuem abordagens e objetivos bastante distintos. A psicologia se naturalmente se baseia (ou deveria se basear) em métodos rigorosos e empíricos para obter conhecimentos objetivos e verificáveis sobre algo. Por outro lado, a psicanálise não se enquadra nos moldes da ciência, pois se apoia em uma metodologia subjetiva e ocultista, baseada na interpretação das experiências e relatos dos pacientes e suas subjetividades confrontando as subjetividades do psicanalista. 

Enquanto a psicologia busca explicar o mundo por meio de “leis universais”, a psicanálise tem como objetivo a compreensão da subjetividade humana, ou seja, dos processos psicológicos inconscientes que influenciam o comportamento humano usando a subjetividade do terapeuta.  

As divergências teóricas de origens diferentes de pensamento sempre irão gerar um choque entre diferentes abordagens, como é o caso da psicanálise e da psicologia. Embora o diálogo possa ser enriquecedor, é importante reconhecer que a defesa de práticas pseudocientíficas, como a psicanálise, pode ser danosa em qualquer curso científico, pois isso pode levar a uma subestimação da importância do método científico e à adoção de práticas que não têm embasamento empírico sólido. Ultimamente essa subestimação não vem apenas aumentado como ataques anticiência estão cada vez mais acalorados surgindo até comparações esdruxulas como o nazismo. 

É curioso pensar que, apesar de termos a intenção obsessiva de reavaliar nossos métodos, essa intenção pressupõe a existência de diálogo honesto e boa intenção na revisão. Entretanto, há uma diferença fundamental entre a pbe e a psicanálise: a ciência não se apoia em verdades absolutas, mas em teorias e hipóteses que são constantemente questionadas e testadas, com o objetivo de refutá-las ou limitá-las. Esse processo de constante revisão e aprimoramento dos métodos e conceitos científicos é o que confere à ciência sua capacidade de se reinventar e evoluir continuamente, buscando uma compreensão mais precisa e aprofundada da realidade. Em última instância, é essa disposição crítica e autorreflexiva que torna a ciência um empreendimento tão fascinante e, ao mesmo tempo, tão necessário para a compreensão do mundo e de nós mesmos. 


Parta sem alarde, sem deixar rastro,  
Que tu, um usurpador, disfarçado de mestre da mente,  
Deleite-se em ilusões, delírios e julgamentos  
Entretanto sempre te lembrarei: nada disso é verdade, nada disso é Psicologia. 

sexta-feira, 3 de março de 2023

Sem diálogo.

 



Ao refletir sobre a lamentação do "não" ao diálogo em nossos tempos, me deparo com a triste constatação de que o debate de ideias muitas vezes se torna uma batalha de monólogos carnívoros, na qual os argumentos são usados não para conduzir a um entendimento comum, mas para reforçar crenças e pontos de vista já estabelecidos.

Isso é especialmente evidente no campo da psicologia, onde a psicanálise e a psicologia baseada em evidências muitas vezes são vistas como polarizadas e conflitantes. Como adepto da psicologia baseada em evidências, entendo a importância da validação empírica e do rigor científico em nossa prática, mas também reconheço que a abordagem psicanalítica tem uma riqueza teórica e clínica que não pode ser descartada tão fácil. 

O psicanalista ( que afirmava nao ser psicanalista) Carl Jung uma vez disse: "A psicologia não pode ser baseada em suposições nem em especulações, mas deve ser uma ciência baseada em fatos verificáveis". De fato, a psicanálise pode ser vista como uma tentativa de compreender os fenômenos psicológicos através de uma observação cuidadosa e uma análise profunda da experiência subjetiva do indivíduo. Por outro lado, a psicologia baseada em evidências busca validade empírica através de estudos controlados e rigorosos, a fim de estabelecer teorias e tratamentos eficazes.

Mas será que essas abordagens realmente se excluem mutuamente? Não seria possível encontrar uma interseção entre as duas, que permita uma compreensão mais completa do fenômeno psicológico? Ao criar um diálogo aberto e honesto entre as abordagens, podemos descobrir novas possibilidades ? Sinceramente? Não acredito que exista a possibilidade da psicanálise render algo,  mas acho que minha opinião não serve de nada antes de tentar de tudo. 

Infelizmente, esse tipo de diálogo (tão cheio de mágoas) muitas vezes é evitado em favor de um posicionamento ideológico rígido (mútuo) . Ao me deparar com comentários estruturados de profunda ignorância e desconhecimento, resolvi tentar dialogar e trazer argumentos neutros, sem tentar magoar ou ser autoritário. No entanto, muitas vezes isso parece piorar a situação, como gasolina no fogo, levando algumas pessoas a perderem o controle e criarem ofensas desnecessárias e desproporcionais.

Ainda assim, acredito que o diálogo é essencial. Como disse o escritor e filósofo alemão Johann Wolfgang von Goethe: "Todas as grandes verdades começam como blasfêmias". Devemos estar dispostos a questionar nossas próprias crenças e ouvir o que os outros têm a dizer, para que possamos avançar em direção a um entendimento mais amplo e inclusivo. Eu me questiono a todo instante, só assim a verdade seguirá se atualizando dentro de mim.

Acredito que a chave para um diálogo frutífero é a abertura e a humildade. Como disse o psicólogo social Jonathan Haidt: "A verdadeira sabedoria vem ao reconhecer o quão pouco sabemos". Devemos estar dispostos a aprender com as abordagens diferentes da nossa, até que se seja provado, no final vemos isso como um jogo de acertos erros.

Porém, o que me preocupa é o fato de que muitas pessoas não estão dispostas a dialogar e considerar pontos de vista diferentes dos seus. A polarização se tornou uma epidemia em nossa sociedade, e parece que as pessoas se fecham em suas próprias bolhas, recusando-se a considerar outras perspectivas.

Acredito que precisamos repensar como abordagem mais aberta e colaborativa à psicologia, que nos permita explorar todas as abordagens disponíveis e escutar, escutar e escutar. O diálogo é fundamental para isso, e precisamos estar dispostos a considerar perspectivas diferentes e a evoluir nossa compreensão da mente humana à medida que aprendemos.


relatos brasileiros

  RELATO 1: "Trabalho em uma clínica com plano de saúde em Curitiba, com carga horária de 40 horas semanais. Os atendimentos não passam...