quarta-feira, 22 de março de 2023

Um momento para esquecer

Eu me lembro que foi em uma quinta-feira com seus 39 graus, e eu estava caminhando em direção à faculdade com o entusiasmo de alguém que está prestes a extrair os próprios dentes. Aquele era o dia mais temido da minha vida academica: minha primeira aula de psicanálise. Como alguém que tem horror a Freud, eu sabia que essa experiência seria, no mínimo, dolorosa.

Eu já tinha lido bastante sobre Freud, mas nunca havia estudado em conjunto, e aí estava eu, prestes a enfrentar o monstro de perto. Sentando-me na sala suado e com o coração na boca, me preparei para ouvir os conceitos freudianos que tanto detestava.

A professora entrou na sala e, devo dizer, ela era encantadora. Loira, jovem e linda - o tipo de pessoa que a vida sempre parece abençoar com privilégios, como se sua beleza da Disney fosse um passe livre para o sucesso. Se alguém pudesse me convencer a aceitar a psicanálise, essa pessoa seria ela, mas eu sabia que haveria luta e seria árdua.

Logo, a aula começou a tomar a forma de uma sessão coletiva de (pseudo)terapia muito louca, onde todos falavam sobre suas vidas como se estivessem compartilhando suas fantasias inconscientes mais secretas. Meus colegas pareciam zumbis enfeitiçados, consumidos pela pseudociência freudiana que a professora lhes servia aos montes. Eu observava, cada vez mais confuso e incrédulo, enquanto eles se aprofundavam em teorias arcaicas que mal funcionariam para analisar a mente de um hamster, quanto mais a mente humana.

A cada aula, sentia que estava afundando cada vez mais em um poço de pensamentos questionáveis e teorias sem sentido. Eu me perguntava como uma disciplina tão arcaica ainda estava sendo ensinada, e por que meus colegas estavam tão dispostos a aceitar tudo aquilo sem questionar. Talvez fosse a influência da professora privilegiada, ou talvez fosse a curiosidade mórbida de ver até onde isso iria. Nada disso, eu sabia a resposta, mas deixei pra lá.

Finalmente, o semestre acabou, e eu saí daquela sala com a sensação de ter sobrevivido a um pesadelo freudiano. A psicanálise, pelo menos para mim, tinha se tornado uma mistura de comédia e horror - uma experiência que eu nunca esqueceria, mas também nunca repetiria.

Agora, sempre que reflito sobre aquele semestre, eu me pergunto: será que sobrevivi a um pesadelo orquestrado por um Freud sádico e louco? Imagino Freud, em algum lugar, esboçando um sorriso maléfico ao ver o lado cômico que encontrei na situação, pronto para atacar aqueles que discordam dele. Afinal, como ele mesmo diria, às vezes um charuto é apenas um charuto - e às vezes, uma aula de psicanálise é apenas uma aula de psicanálise, mesmo que pareça um episódio de um filme de terror sobre zumbis enfeitiçados por pseudociência. Saí dessa experiência com uma alma que tive que deixar para trás e um pouco manco, mas, pelo menos, sobrevivi aos caprichos de um Freud enlouquecido e implacável.

Ensinar Psicanálise na Faculdade: É Ensinar Pseudociência de Baixo Custo

Ei, você aí, já ouviu falar da resistência das faculdades brasileiras em continuar ensinando psicanálise nos cursos de Psicologia? Apesar de ser considerada uma pseudociência, a psicanálise segue firme e forte nas salas de aula. E sabe o que é mais intrigante? Uma das principais razões para essa persistência é o baixo custo associado ao ensino dessa matéria. Vamos mergulhar nesse controverso tema e entender por que é tão difícil derrubar a psicanálise do pedestal em que ela nunca deveria estar.


Psicanálise: o que é e por que causa polêmica?

A psicanálise, criada por Sigmund Freud no final do século XIX, é uma abordagem terapêutica baseada na ideia de que nossos problemas psicológicos estão enraizados em conflitos inconscientes. A teoria freudiana é marcada pela presença de conceitos como o complexo de Édipo, a repressão e a libido. No entanto, a falta de evidências científicas para sustentar muitos dos conceitos e métodos da psicanálise a torna uma pseudociência (Popper, 1959).


Por que as faculdades brasileiras ainda ensinam psicanálise?

É verdade que a psicanálise tem nuances próprias no Brasil (como já expliquei em outro texto), mas isso não justifica sua permanência nos currículos de Psicologia. Um dos principais motivos é o baixo custo associado à matéria. A psicanálise não exige conhecimento prático para ser ensinada e não requer investimento em laboratórios ou equipamentos sofisticados. Basta um professor, uma lousa e um punhado de textos freudianos para "fazer a festa"!


Críticas à psicanálise desde os tempos de Freud

As críticas à psicanálise não são novidade. Desde os tempos de Freud, ele foi acusado de ser um "picareta". Em 1913, o filósofo Karl Jaspers já apontava a falta de rigor científico na obra freudiana, destacando a ausência de critérios objetivos para a verificação de suas teorias (Jaspers, 1913). Outros autores, como o filósofo da ciência Karl Popper, também destacaram que a psicanálise é infalsificável e, portanto, não pode ser considerada uma teoria científica (Popper, 1959).


A necessidade de mudança

As faculdades brasileiras precisam abandonar a resistência em ensinar psicanálise e abraçar abordagens terapêuticas baseadas em evidências, como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e a Psicologia Positiva. Essas abordagens têm fundamentação científica sólida e são eficazes no tratamento de diversos transtornos psicológicos (Hofmann et al., 2012).

Basta de insistir no ensino da psicanálise nas faculdades de Psicologia no Brasil! Esse cenário me faz lembrar do filme corenano "Parasita", onde a família menos abastada se infiltra na vida da família rica de maneira sorrateira e oportunista. Assim como no filme, a persistência da psicanálise no curso de psicologia é como um parasita que insiste em se infiltrar no campo da Psicologia, apesar de sua falta de fundamentação científica.

É hora de mudar, de atualizar os currículos e abrir espaço para abordagens terapêuticas baseadas em evidências científicas sólidas e comprovadamente eficazes. Manter a psicanálise nos cursos de Psicologia é como permitir que esse "parasita" continue se alimentando dos recursos e do prestígio da área, prejudicando a formação de profissionais competentes.

Professores, estudantes e psicologos precisam se unir, assim como os personagens do filme "Parasita" se unem para enfrentar a situação, para promover a ciência e expulsar a pseudociência de nossas instituições de ensino. Só assim poderemos garantir um futuro melhor para a Psicologia e para os profissionais que dela farão parte.


Referências:


Hofmann, S. G., Asnaani, A., Vonk, I. J., Sawyer, A. T., & Fang, A. (2012). The efficacy of cognitive behavioral therapy: A review of meta-analyses. Cognitive Therapy and Research, 36(5), 427-440.

Jaspers, K. (1913). Allgemeine Psychopathologie: ein Leitfaden für Studierende, Ärzte und Psychologen. J. Springer.

Popper, K. R. (1959). The logic of scientific discovery. Hutchinson.

Pseudociências nas Faculdades de Psicologia no Brasil: Falta de Interesse e Necessidade de Intervenções

O ensino de pseudociências nas faculdades de Psicologia no Brasil é uma preocupação crescente para profissionais, acadêmicos e estudantes da área. Este fenômeno não só afeta a qualidade da formação de futuros psicólogos, mas também a percepção pública da Psicologia como uma ciência rigorosa e baseada em evidências. Neste texto, analiso a persistência do ensino de pseudociências nas instituições de ensino superior brasileiras e a falta de interesse dessas instituições em atualizar seus currículos de maneira ética. Além disso, discutiremos as responsabilidades dos estudantes e proporemos intervenções para combater esse problema.

Pseudociências são teorias ou práticas que se apresentam como científicas, mas que não possuem fundamentação empírica, metodologia rigorosa ou validação por pares (Shermer, 1997). No contexto da Psicologia, algumas teorias, como a Programação Neurolinguística (PNL) e a Psicanálise, podem ser consideradas pseudociências.

A presença de pseudociências no ensino da psicologia pode ser atribuída a várias causas, entre elas: falta de rigor científico, interesses comerciais e inércia acadêmica (Lilienfeld et al., 2012). Por exemplo, muitas instituições de ensino ainda oferecem cursos baseados em teorias obsoletas ou refutadas, como a Grafologia e a Hipnose Ericksoniana, sem fornecer a seus alunos a devida contextualização histórica e científica (Benuto, 2015).

As instituições de ensino têm a responsabilidade ética de fornecer um ensino atualizado e baseado em evidências, mas muitas vezes não investem em treinamento e atualização do seu corpo técnico e de seus professores. Isso resulta em um ensino desatualizado e, em alguns casos, a promoção de pseudociências. Além disso, é necessário um controle mais rigoroso por parte dos órgãos reguladores do ensino superior, como o Ministério da Educação (MEC) e o Conselho Federal de Psicologia (CFP), no que se refere à qualidade dos cursos oferecidos.

A responsabilidade, no entanto, não recai apenas sobre as instituições. Os estudantes de Psicologia também têm a responsabilidade de buscar conhecimento científico e desenvolver habilidades críticas para discernir entre teorias válidas e pseudociências. Eles devem se engajar ativamente em seu processo educacional, buscando atualizações e conhecimento de fontes confiáveis.


Intervenções sugeridas:

  1. Revisão curricular: As instituições de ensino devem rever periodicamente seus currículos, eliminando conteúdos pseudocientíficos e atualizando os cursos com base nas melhores práticas e evidências científicas.
  2. Capacitação docente: As faculdades devem investir na formação continuada de seus professores, incentivando a participação em eventos científicos e cursos de atualização.
  3. Fiscalização dos órgãos reguladores: O MEC e o CFP devem exercer maior fiscalização na qualidade dos cursos de Psicologia, assegurando que sejam baseados em evidências científicas e de acordo com as diretrizes éticas e profissionais.
  4. Educação para o pensamento crítico: Os estudantes devem ser estimulados a desenvolver habilidades de pensamento crítico e avaliação de evidências, a fim de discernir entre teorias válidas e pseudociências.
  5. Fomentar a pesquisa: As instituições de ensino devem incentivar a realização de pesquisas científicas de qualidade, promovendo o diálogo entre a teoria e a prática e possibilitando o avanço do conhecimento na área da Psicologia.
  6. Inclusão de tópicos sobre pseudociências nos currículos: As faculdades podem incluir tópicos específicos sobre pseudociências nos currículos, visando fornecer aos estudantes as ferramentas necessárias para identificar e combater práticas não embasadas cientificamente.

A persistência do ensino de pseudociências nas faculdades de Psicologia no Brasil é um problema que demanda a atenção e o engajamento tanto das instituições de ensino quanto dos estudantes. A promoção de um ensino de qualidade, baseado em evidências e atualizado, é fundamental para garantir a formação de profissionais competentes e a consolidação da Psicologia como ciência. Através de intervenções eficazes e comprometimento ético, é possível combater a proliferação de pseudociências e contribuir para um ensino superior de excelência na área da Psicologia.



Referências:

Benuto, L. T. (2015). Pseudoscience in psychology. In S. O. Lilienfeld, J. Ruscio, & S. J. Lynn (Eds.), Psychological science under scrutiny: Recent challenges and proposed solutions (pp. 47-62). John Wiley & Sons.

Lilienfeld, S. O., Lynn, S. J., & Lohr, J. M. (2012). Science and pseudoscience in clinical psychology (2nd ed.). Guilford Press.

Shermer, M. (1997). Why people believe weird things: Pseudoscience, superstition, and other confusions of our time. Henry Holt and Company.

quarta-feira, 15 de março de 2023

Opinião: Negação e Ideologia.


Esqueleto ideológico da psicanálise

A negação da ciência é frequentemente uma estratégia ideológica e política adotada por grupos com interesses próprios. Isso ocorre quando esses grupos percebem a ciência e a evidência científica como ameaças aos seus interesses financeiros, políticos ou ideológicos.


No Brasil, a psicanálise apresenta várias facetas, com diversas escolas e abordagens teóricas. Contudo, é possível identificar certos elementos que compõem o esqueleto ideológico da psicanálise no país.


A forte influência de Freud é um desses elementos. A psicanálise brasileira foi introduzida por psicanalistas europeus, especialmente alemães, que trouxeram consigo as obras de Sigmund Freud. Conceitos freudianos como o inconsciente, o complexo de Édipo, a transferência e a resistência formam a base da psicanálise no Brasil.


Outra característica é a abertura à diversidade cultural, fruto da própria cultura brasileira marcada pela pluralidade étnica, cultural e social. A psicanálise brasileira incorpora questões sociais e culturais em sua teoria e prática, valorizando a análise interminável e permitindo uma exploração mais profunda da subjetividade do paciente.


A interdisciplinaridade é outra tendência na psicanálise brasileira, dialogando com disciplinas como sociologia, antropologia, filosofia e literatura. A teoria da psicanálise de grupo é um exemplo dessa interação, combinando teoria psicanalítica e teoria das organizações.


Além disso, a psicanálise brasileira, devido à sua inclinação crítica às estruturas sociais, busca compreender e denunciar as raízes psicológicas da desigualdade social, opressão e exclusão. Essa crítica às estruturas sociais é uma resposta às injustiças produzidas pelo capitalismo, que explora a classe trabalhadora em prol do lucro da classe dominante. Nesse sentido, a psicanálise se alinha com a luta por justiça social e pela transformação das relações sociais em uma base igualitária. A teoria da psicanálise aplicada é uma forma de aplicar a teoria psicanalítica na análise das questões sociais e políticas, como a luta por direitos trabalhistas e a busca por uma sociedade mais justa e igualitária.


Entretanto, é importante ressaltar que há uma falta de rigor conceitual na psicanálise. Essa ausência pode ter consequências sérias em várias áreas do conhecimento, especialmente quando há uma tendência a aplicar conceitos de uma disciplina em outras sem o devido cuidado e critério. Isso pode levar à distorção dos conceitos originais, perda de significado e validade, e dificuldade para a comunicação entre especialistas. Portanto, é fundamental que haja critérios claros e rigorosos para a participação em áreas fora da própria disciplina, a fim de evitar equívocos.


Na psicanálise, a falta de rigor conceitual pode ser percebida de diversas maneiras. Uma delas é quando os psicanalistas usam termos como "ego", "superego", "inconsciente" ou "transferência" de maneira imprecisa ou sem clareza conceitual, o que pode levar a mal-entendidos e equívocos na comunicação entre os profissionais. Outro exemplo é quando os psicanalistas aplicam conceitos freudianos de forma dogmática, sem levar em consideração os avanços teóricos e as mudanças na sociedade e na cultura que ocorreram desde a época de Freud.


A falta de rigor conceitual também pode ser observada na maneira como a psicanálise é aplicada em outras áreas do conhecimento, como educação, cultura, política e justiça social. Quando os psicanalistas aplicam seus conceitos e técnicas em contextos que vão além de sua formação original, eles podem acabar distorcendo as teorias e os conceitos originais, tornando-os irrelevantes ou mesmo perigosos.


Por exemplo, a aplicação da psicanálise na justiça criminal tem sido criticada por alguns psicanalistas, pois a teoria e as técnicas psicanalíticas não foram originalmente desenvolvidas para esse contexto específico. Além disso, a aplicação incorreta da psicanálise pode levar a erros na interpretação dos resultados e na tomada de decisões judiciais.


A psicanálise também é frequentemente criticada por sua tendência à autosuficiência e arrogância. A disciplina muitas vezes se autoproclama como uma área autossuficiente, capaz de explicar todos os aspectos da vida humana, ignorando outras perspectivas e teorias. A teoria psicanalítica pode ser vista como uma explicação universal para os fenômenos humanos, que muitas vezes minimiza outras abordagens.


Essa tendência à autosuficiência se manifesta em diferentes aspectos da psicanálise. A disciplina muitas vezes se concentra na análise do indivíduo em detrimento das relações sociais e das estruturas sociais mais amplas, como a economia, a política e a cultura. Além disso, a psicanálise muitas vezes ignora críticas e avanços em outras áreas do conhecimento, especialmente as ciências biológicas e neurocientíficas, limitando e talvez impondo uma visão estreita sobre como a mente humana deve ser compreendida.


A falta de diálogo e troca de informações com outras áreas da psicologia mais científica pode levar a uma visão limitada e desatualizada da psicanálise. Além disso, a falta de rigor conceitual da disciplina pode levar a uma falta de validade científica e empírica. Muitas vezes, a psicanálise utiliza conceitos imprecisos ou mal definidos, o que dificulta a comunicação com outras áreas e pode levar a uma perda de validade e relevância.


Para se atualizar e se tornar relevante, a psicanálise precisa reconhecer a necessidade de validação empírica de suas teorias e conceitos, estar aberta a outras formas de validação, como estudos experimentais e pesquisas quantitativas. Além disso, é importante que a psicanálise reconheça a diversidade de perspectivas e experiências, bem como se beneficie da interação com outras disciplinas para garantir que continue sendo relevante e útil para a compreensão da mente humana.


Em suma, a psicanálise no Brasil possui um esqueleto ideológico complexo e multifacetado, que reflete as influências históricas, culturais e sociais do país. A forte presença de Freud, a abertura à diversidade cultural, a interdisciplinaridade e a tendência crítica às estruturas sociais são aspectos fundamentais da psicanálise no Brasil. No entanto, é crucial abordar as questões de falta de rigor conceitual e a tendência à autosuficiência para garantir que a disciplina continue relevante e eficaz na compreensão e tratamento das questões psicológicas e sociais.


A psicanálise deve buscar um equilíbrio entre suas raízes históricas e a necessidade de se adaptar às mudanças sociais e culturais, bem como aos avanços científicos e tecnológicos. A colaboração com outras áreas do conhecimento e a abertura ao diálogo e à crítica são fundamentais para garantir que a psicanálise continue sendo uma disciplina relevante e útil na compreensão da complexidade da mente humana e das relações sociais.


Para enfrentar os desafios e críticas, a psicanálise no Brasil deve continuar a valorizar a diversidade cultural e a interdisciplinaridade, ao mesmo tempo em que busca rigor conceitual e validação empírica. Além disso, é importante que os profissionais da área estejam dispostos a dialogar com outras disciplinas e a aprender com as contribuições de outras áreas do conhecimento. Somente assim, a psicanálise poderá continuar sendo uma ferramenta valiosa e eficaz para a compreensão e o tratamento dos dilemas psicológicos e sociais enfrentados pelos indivíduos e pelas sociedades em constante evolução.

segunda-feira, 13 de março de 2023

 As memórias são uma parte fundamental de nossa experiência humana. Elas moldam nossas percepções de nós mesmos e do mundo ao nosso redor. No entanto, nem sempre podemos confiar em nossas memórias para nos fornecer uma imagem precisa do passado. Às vezes, as memórias podem ser distorcidas, alteradas ou mesmo completamente fabricadas.

Nos anos 90, houve um aumento alarmante de casos de pessoas que alegavam ter recuperado memórias reprimidas de abusos sexuais na infância. Essas memórias frequentemente envolviam relatos de abuso sexual perpetrado por pais, parentes próximos ou outras figuras de autoridade. Muitas vezes, as memórias foram recuperadas durante sessões de terapia com terapeutas e psicanalistas.

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Um dos principais defensores da prática de recuperação de memória reprimida na década de 90 foi o psiquiatra Lawrence Pazder. Ele escreveu um livro intitulado "Michelle Remembers", que descreveu as supostas memórias reprimidas de abuso sexual em sua paciente Michelle Smith. O livro foi amplamente divulgado e levou a um aumento na popularidade da terapia de recuperação de memória. No entanto, muitos anos depois, o livro foi desacreditado e Pazder foi criticado por sua falta de base científica em suas práticas clínicas..

A psicologa Elizabeth Loftus foi uma das primeiras a investigar e provar cientificamente que as memórias podem ser facilmente distorcidas e manipuladas. Ela realizou uma série de experimentos nos anos 70 e 80, nos quais mostrou que as pessoas podem ser levadas a acreditar em eventos que nunca ocorreram. Loftus também provou que as memórias recuperadas através da terapia psicanalítica eram altamente suscetíveis a distorção e que a técnica podia facilmente criar falsas memórias. Seu trabalho influenciou significativamente a ciência da memória e ajudou a desacreditar a prática de recuperação de memória reprimida.


Na década de 90, a questão das memórias falsas se tornou um tópico de grande interesse na imprensa. Várias reportagens foram publicadas em jornais, revistas e programas de televisão, discutindo o impacto potencialmente devastador das memórias falsas e a prática controversa de recuperação de memória reprimida.

Uma das histórias mais notórias envolvendo memórias falsas na época foi o caso da creche McMartin em Los Angeles, EUA. Em 1983, alegações de abuso sexual foram feitas contra os proprietários da creche por pais preocupados, levando a uma investigação policial de sete anos. No entanto, a investigação não encontrou evidências concretas para apoiar as acusações e, em 1990, todos os acusados foram absolvidos. O caso foi amplamente divulgado pela mídia e muitos argumentaram que as crianças envolvidas no caso haviam sido vítimas de sugestão e pressão para fornecer falsas informações.

Outro caso que ganhou destaque na imprensa foi o de Eileen Franklin-Lipsker, que em 1990 acusou seu pai George Franklin de ter estuprado e assassinado sua amiga de infancia quando ela  tinha 8 anos. Eileen havia supostamente reprimido as memórias do assassinato, mas as recuperou através de sessões de terapia. No entanto, após um julgamento longo e controverso, George Franklin foi absolvido em 1996, e a credibilidade das memórias recuperadas através de terapia psicanalítica foi questionada.

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As técnicas terapêuticas que foram associadas a casos de memórias falsas em torno do abuso infantil incluem a hipnose e a terapia regressiva. Essas técnicas foram amplamente utilizadas por terapeutas na década de 1980 e 1990, especialmente na corrente psicanalítica, para tentar ajudar pacientes que sofriam de transtornos emocionais graves, como ansiedade e depressão.

A partir da década de 1990, muitos psicólogos e terapeutas começaram a se afastar dessas técnicas em favor de abordagens mais baseadas em evidências, como a terapia cognitivo-comportamental. Ainda assim, a psicanálise e outras formas de terapia psicodinâmica continuam sendo amplamente praticadas em todo o mundo, apesar de ter havido um crescente reconhecimento dos riscos associados à recuperação de memórias reprimidas.

É assustador e surpreendente como a terapia de recuperação de memórias e as falsas memórias foram amplamente aceitas nos anos 80 e 90, apesar da completa falta de evidências científicas para apoiá-las. Isso levanta uma série de questões importantes sobre como a sociedade aceita certas ideias sem questionar sua validade e como profissionais da saúde mental podem ser influenciados por crenças populares ou teorias estúpidas. Infelizmente, a falta de rigor científico e o potencial para danos psicológicos em práticas terapêuticas mal fundamentadas não são exclusivos do passado e estão em universidades, artigos cientifícos e por aí vai. Até hoje abordagens psicológicas são promovidas sem uma base sólida em evidências, e alegações de memórias reprimidas e traumas passados ​​são ainda levantadas sem a devida cautela. É importante questionarmos o que nos leva a aceitar certas ideias e práticas reprovadas pelo básico da ciencia, se contiuarmos tendo pressa, continuaremos provocando estragos.

domingo, 12 de março de 2023

MORREU DE SUICIDIO

 

Charles Lucien Léandre - Madame Bovary.



"Medicamentos não fazem as pessoas felizes. 
Eles as tornam insensíveis" 
- Jacques Lacan
 
Acreditava-se que a psicologia e a psicanálise eram ciências objetivas e imparciais, quando na verdade eram construídas a partir de crenças e preconceitos culturais que permeavam a sociedade.

O uso do termo "se matar" para descrever uma pessoa que morreu de suicídio é altamente problemático do ponto de vista da suicidiologia. Esse termo implica que o indivíduo fez uma escolha consciente para acabar com sua vida, ignorando completamente a complexidade das emoções e da saúde mental que levaram a essa decisão.

O termo "se suicidar" não fica atras, por mais que se reconheça que o suicídio é uma ação complexa, muitas vezes influenciada por fatores biológicos, psicológicos e sociais. É importante lembrar que o suicídio não é uma escolha livre e racional, mas sim um resultado trágico de uma série de fatores que podem incluir doenças mentais, traumas, perdas e isolamento social.

O uso do termo "morreu de suicídio" é o unico a ser usado. Isso porque o suicídio é uma causa de morte, assim como doenças ou acidentes. O uso do termo "morreu de suicídio" ajuda a normalizar o reconhecimento de que o suicídio é uma causa real e trágica de morte, em vez de reforçar a estigmatização e o tabu em torno do assunto.

Assim como as religiões, que por muito tempo julgaram e condenaram indivíduos com doenças mentais como possuídos pelo demônio, a psicologia e a psicanálise também contribuíram para o estigma e a desqualificação das doenças mentais (de formas diferente, porém ambas equivocadas por motivos diferentes). Essa visão reducionista influencia muito no tratamento adequado dos transtornos psicológicos e psiquiátricos.


Voltando a origem de onde esses termos saem...

É importante destacar que a abordagem psicanalítica não trata a saúde mental com simplicidade, mas sim como ela bem entende. A psicanálise busca entender o indivíduo em sua teoria, considerando seu passado, suas experiências, seus traumas e seus conflitos internos como pistas para solucionar o presente. Certamente a psicanálise não se opõe à medicina, entretanto tenta aliar seu processo terapeutico (sem qualquer comprovação cientifica) de forma com que ela questione a validade de muitos tratamentos por acreditar que existe uma indutria farmaceutica por trás (mesmo sem provas). Perpetuando assim tantos achismos e desencontros com a ciencia. 

Enquanto "penetras" estiverem julgando e contextando a ciencia sem usarem ciencia para isso, teremos negacionismo e capacitismo.


sábado, 11 de março de 2023

Psicanalise Usurpadora?


Deixe-os em paz; são guias cegos.  
 E se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova. 

– Mateus 15:14 


A psicologia surgiu no final do século XIX na Europa, e foi trazida ao Brasil no início do século XX. Apesar da falta de regulamentação do ensino e da prática, em 1953, inicia-se o primeiro curso superior autônomo de Psicologia, na PUC do Rio de Janeiro (Esch & Jacó-Vilela, 2001; Yamamoto, 2006). Na época, a psicanálise era uma das correntes teóricas mais difundidas no mundo. Por ser o primeiro curso, não existiam professores formados em psicologia, sendo professores formados em outras áreas como direito, filosofia, etc. 

Ao longo do tempo, a psicologia tentou se separar cada vez mais da psicanálise. A distância se deu por divergências teóricas, ideológicas e por falta de embasamento científico na psicanálise. A psicanálise é uma disciplina com métodos e objetivos próprios sem comprovação empírica e não pode ser resumida a uma simples escola psicológica afinal ela por sua vez, deve ser ensinada em cursos específicos, como psicanálise clínica ou terapia psicanalítica, e não como parte da formação em psicologia, não faz sentido algum já que seus defensores negam que ela seja uma ciência ( não se baseia em métodos de verificação empírica) e a psicologia certamente é uma ciência.  

A psicanálise e a psicologia possuem abordagens e objetivos bastante distintos. A psicologia se naturalmente se baseia (ou deveria se basear) em métodos rigorosos e empíricos para obter conhecimentos objetivos e verificáveis sobre algo. Por outro lado, a psicanálise não se enquadra nos moldes da ciência, pois se apoia em uma metodologia subjetiva e ocultista, baseada na interpretação das experiências e relatos dos pacientes e suas subjetividades confrontando as subjetividades do psicanalista. 

Enquanto a psicologia busca explicar o mundo por meio de “leis universais”, a psicanálise tem como objetivo a compreensão da subjetividade humana, ou seja, dos processos psicológicos inconscientes que influenciam o comportamento humano usando a subjetividade do terapeuta.  

As divergências teóricas de origens diferentes de pensamento sempre irão gerar um choque entre diferentes abordagens, como é o caso da psicanálise e da psicologia. Embora o diálogo possa ser enriquecedor, é importante reconhecer que a defesa de práticas pseudocientíficas, como a psicanálise, pode ser danosa em qualquer curso científico, pois isso pode levar a uma subestimação da importância do método científico e à adoção de práticas que não têm embasamento empírico sólido. Ultimamente essa subestimação não vem apenas aumentado como ataques anticiência estão cada vez mais acalorados surgindo até comparações esdruxulas como o nazismo. 

É curioso pensar que, apesar de termos a intenção obsessiva de reavaliar nossos métodos, essa intenção pressupõe a existência de diálogo honesto e boa intenção na revisão. Entretanto, há uma diferença fundamental entre a pbe e a psicanálise: a ciência não se apoia em verdades absolutas, mas em teorias e hipóteses que são constantemente questionadas e testadas, com o objetivo de refutá-las ou limitá-las. Esse processo de constante revisão e aprimoramento dos métodos e conceitos científicos é o que confere à ciência sua capacidade de se reinventar e evoluir continuamente, buscando uma compreensão mais precisa e aprofundada da realidade. Em última instância, é essa disposição crítica e autorreflexiva que torna a ciência um empreendimento tão fascinante e, ao mesmo tempo, tão necessário para a compreensão do mundo e de nós mesmos. 


Parta sem alarde, sem deixar rastro,  
Que tu, um usurpador, disfarçado de mestre da mente,  
Deleite-se em ilusões, delírios e julgamentos  
Entretanto sempre te lembrarei: nada disso é verdade, nada disso é Psicologia. 

sexta-feira, 3 de março de 2023

Sem diálogo.

 



Ao refletir sobre a lamentação do "não" ao diálogo em nossos tempos, me deparo com a triste constatação de que o debate de ideias muitas vezes se torna uma batalha de monólogos carnívoros, na qual os argumentos são usados não para conduzir a um entendimento comum, mas para reforçar crenças e pontos de vista já estabelecidos.

Isso é especialmente evidente no campo da psicologia, onde a psicanálise e a psicologia baseada em evidências muitas vezes são vistas como polarizadas e conflitantes. Como adepto da psicologia baseada em evidências, entendo a importância da validação empírica e do rigor científico em nossa prática, mas também reconheço que a abordagem psicanalítica tem uma riqueza teórica e clínica que não pode ser descartada tão fácil. 

O psicanalista ( que afirmava nao ser psicanalista) Carl Jung uma vez disse: "A psicologia não pode ser baseada em suposições nem em especulações, mas deve ser uma ciência baseada em fatos verificáveis". De fato, a psicanálise pode ser vista como uma tentativa de compreender os fenômenos psicológicos através de uma observação cuidadosa e uma análise profunda da experiência subjetiva do indivíduo. Por outro lado, a psicologia baseada em evidências busca validade empírica através de estudos controlados e rigorosos, a fim de estabelecer teorias e tratamentos eficazes.

Mas será que essas abordagens realmente se excluem mutuamente? Não seria possível encontrar uma interseção entre as duas, que permita uma compreensão mais completa do fenômeno psicológico? Ao criar um diálogo aberto e honesto entre as abordagens, podemos descobrir novas possibilidades ? Sinceramente? Não acredito que exista a possibilidade da psicanálise render algo,  mas acho que minha opinião não serve de nada antes de tentar de tudo. 

Infelizmente, esse tipo de diálogo (tão cheio de mágoas) muitas vezes é evitado em favor de um posicionamento ideológico rígido (mútuo) . Ao me deparar com comentários estruturados de profunda ignorância e desconhecimento, resolvi tentar dialogar e trazer argumentos neutros, sem tentar magoar ou ser autoritário. No entanto, muitas vezes isso parece piorar a situação, como gasolina no fogo, levando algumas pessoas a perderem o controle e criarem ofensas desnecessárias e desproporcionais.

Ainda assim, acredito que o diálogo é essencial. Como disse o escritor e filósofo alemão Johann Wolfgang von Goethe: "Todas as grandes verdades começam como blasfêmias". Devemos estar dispostos a questionar nossas próprias crenças e ouvir o que os outros têm a dizer, para que possamos avançar em direção a um entendimento mais amplo e inclusivo. Eu me questiono a todo instante, só assim a verdade seguirá se atualizando dentro de mim.

Acredito que a chave para um diálogo frutífero é a abertura e a humildade. Como disse o psicólogo social Jonathan Haidt: "A verdadeira sabedoria vem ao reconhecer o quão pouco sabemos". Devemos estar dispostos a aprender com as abordagens diferentes da nossa, até que se seja provado, no final vemos isso como um jogo de acertos erros.

Porém, o que me preocupa é o fato de que muitas pessoas não estão dispostas a dialogar e considerar pontos de vista diferentes dos seus. A polarização se tornou uma epidemia em nossa sociedade, e parece que as pessoas se fecham em suas próprias bolhas, recusando-se a considerar outras perspectivas.

Acredito que precisamos repensar como abordagem mais aberta e colaborativa à psicologia, que nos permita explorar todas as abordagens disponíveis e escutar, escutar e escutar. O diálogo é fundamental para isso, e precisamos estar dispostos a considerar perspectivas diferentes e a evoluir nossa compreensão da mente humana à medida que aprendemos.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Picaretagem ou simplesmente uma imperfeição humana?

 


"Acreditar em algo não faz com

 que esse algo seja verdadeiro."

 - Carl Sagan.

 

Toda jornada se inicia com um bombardeio de informações, porém, à medida que prossegue ou é deixada de lado, o estoque de conhecimento diminui e estabiliza, o conhecimento é uma atividade constante e mutante e o que se concebe como verdade hoje, pode não sê-lo amanhã.
Para os leigos, acreditar que alguém possua conhecimento desejado é natural, mas pode levar a perceber esse conhecimento como inacessível e inalcançável (efeito contraste). FULANA é uma psicóloga com mais de 100 mil seguidores e dona de uma didática excelente, autointitulada como “Rainha da PBE no Brasil” ou “Mãe” (referência provavelmente vinda de Ivete Sangalo), cujo apelido se deve à forma carinhosa com que trata seus seguidores e pela contestação de algumas linhas da psicologia, embora tenha custado um preço caro.
Apesar de FULANA elevar o nome da PBE, alcançar diversos públicos e revolucionar carreiras com cursos atualizados, detalhados e densos, sempre houve questionamentos em relação a algumas de suas atitudes. Afinal, sua tocha de conhecimento é a única que ilumina a caverna? O que a torna tão especial para que sua tocha seja a única a iluminar de verdade? Se a tocha dela é tão eficaz, por que ela usurpa indicações de leituras/ conteúdos específicos/roteiros inteiros de aula já postados por outros profissionais relevantes, sem dar o devido crédito? 

A verdade é que FULANA é bem-sucedida como influencer em um país com pouca capacidade de pensar criticamente. Muitos de seus vídeos (promocionais) cinicamente chamados de aula grátis, possuem distorções sobre a psicologia baseada em evidências, destaca-a como uma ferramenta mais potente “do que remédios” (milagrosa), e sobre o alto padrão de vida que aqueles que fazem seus cursos terão, colocando a PBE como um produto escasso no qual SÓ ela ensina segredos de sucesso passo a passo como mágica!
Embora não seja a única a deixar a ética de lado e colocar pequenas mentiras em seu discurso, FULANA talvez não seja culpada, muito menos uma picareta. Talvez o problema seja a falta de pensamento crítico no Brasil, que nos impede de analisar todos os profissionais que dão cursos e perceber quais priorizam o desenvolvimento da nossa autonomia racional e quais oferecem fórmulas mágicas.
Em outras palavras, embora FULANA tenha uma grande base de conhecimento e didática, suas práticas de marketing de guerrilha e distorções (acidentais, talvez) no que diz respeito a Psicologia Baseada em Evidências são questionáveis. É importante que os indivíduos desenvolvam um pensamento crítico para avaliar as informações que recebem e as fontes de onde elas vêm. Além disso, é fundamental que os profissionais que oferecem cursos e informações sejam éticos e transparentes em seu discurso, dando crédito a outras fontes relevantes e evitando promessas irreais tais como FULANA.
Como sociedade, devemos ser críticos em relação aos influenciadores e formadores de opinião, especialmente no que diz respeito a áreas tão importantes quanto a psicologia. Em simultâneo, devemos reconhecer aqueles que trabalham com ética e comprometimento em compartilhar seu conhecimento e ajudar os outros a crescer. A saga do conhecimento é contínua e só pode ser percorrida com honestidade, humildade e responsabilidade.

Esse texto não avalia Fulana, porém se propõe a refletir sobre a falta de honestidade de tantos.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

A Jornada para Além da Compreensão




A mente é um universo infinito e insondável, mas também é limitada pela realidade e pelos padrões estabelecidos na troca de relações uns com os outros. Desejamos acreditar que podemos evoluir além de nossos limites, mas essa ilusão é perigosa, pois nos impede de enxergar as limitações que temos, acabamos delirando e isso e nos impede de viver de acordo com a verdadeira natureza da realidade que no final basta ser bidmensional. Quando nos aferramos à ideia de que podemos mudar mais do que realmente podemos, acabamos criando uma realidade fantasiosa que nos afasta da verdadeira natureza do ser humano e nos impede de viver.

A  realidade é uma questão profunda e enigmática que desafia a compreensão humana há séculos. Ela é uma dimensão que corpos não entram e inescrutável. 

A mente humana, por sua vez, é um refugio que distorce e ilimita nossa percepção. Para transcendê-la e alcançar uma compreensão mais profunda da existência, precisamos liberar nossa mente desse universo que nos protege (ou nos engana) e expandir nossa consciência além da compreensão humana convencional.

É uma jornada árdua e solitária que requer peito vazio, sem espectativas do belo ou esperanças do novo. Ao longo desta jornada, começamos a compreender que a realidade é uma construção confusa da mente, e que somente ao liberarmos nossas percepções limitadas é que podemos alcançar uma compreensão mais profunda e significativa da existência. E lá está ela: coberta por um nevoeiro que não se vê um palmo.

Matar essa fantasia poderá ser fundamental para evitar que o nosso destino seja esse Matrix cognitivo. Que seja ele rompido e que podemos ver o quanto a mente mente.

TRADUÇÃO DE : Psychology Gone Wrong: The Dark Sides of Science and Therapy - CÁPÍTULO 2Capitulo 3 em ingles


 

CAPÍTULO 2 O NOBRE FRAUDADOR: DE GLÓRIAS AS MENTIRAS  ACADÊMICAS 

Poderia ter parecido naturalmente assim... 

     Naquele dia de outono de 1946 em Londres, o ar estava úmido e o tempo bastante nebuloso. Tímidos e raros, pequenos raios de solares espreitavam por detrás das nuvens robustas como se quisessem iluminar o dia com louvor e com a glória merecida. Cyril Lodovic Burt chegou ao Palácio de Buckingham sabendo que, quando deixasse os portões do castelo mais tarde naquele dia, seria uma pessoa diferente: não apenas maior e mais forte do que nunca, mas também um pouco diferente - finalmente se juntando ao fileiras da nobreza e cortando, de uma vez por todas, seus laços com as classes mais baixas. Ele agora seria capaz de esquecer suas memórias de infância nos bairros da classe trabalhadora, assim como você esquece um filme que acabou de ver quando sai do cinema. O salão principal, onde estava marcada a cerimônia, não impressionou Cyril Burt com seu esplendor. Parecia não mais do que um ambiente adequado para o reconhecimento dele neste dia. Apesar disso, quando o Rei entrou no salão com dois oficiais Gurkha ao seu lado e na presença de Lord Chamberlain, ele sentiu um arrepio de excitação. Um pensamento de que seu pai teria ficado extraordinariamente orgulhoso - se pudesse vê-lo naquele momento - passou pela cabeça de Cyril. Cinco soldados da Guarda Real já estavam no pódio quando soou o hino nacional. Quando parou, Lord Chamberlain ocupou seu lugar à direita do rei e começou a ler os nomes dos candidatos junto com suas honrosas realizações. Finalmente foi a vez dele. À medida que Lord Chamberlain lia as realizações de Burt, suas preocupações e ansiedades, seus medos e lutas por respeito desapareceram lentamente. A cada palavra solene dita por Lord Chamberlain, um novo e diferente Cyril Burt estava nascendo - Sir Cyril Burt, o primeiro psicólogo cavaleiro do mundo.

      Além do título de cavaleiro concedido pelo rei, Burt foi reconhecido por suas realizações ao ser nomeado chefe do Departamento de Psicologia da University College London, onde trabalhou antes de finalmente se aposentar em 1950. Pouco antes de sua morte, a American Psychological Association o reconheceu com o prestigioso Prêmio Thorndike. 

     Cyril Lodovic Burt nasceu em 4 de março de 1883 em um dos bairros operários de Londres. De acordo com os biógrafos de Burt, seu pai, tendo formação médica suficiente, administrava uma próspera farmácia. O jovem Cyril foi para a escola e passou muitas horas nas ruas com amigos de famílias pobres e trabalhadoras. Ele até aprendeu a falar cockney. Suas experiências de rua muitas vezes o ajudaram em seu trabalho futuro, especialmente quando ele estava lidando com criminosos juvenis. Ele se lembrou de como seus colegas experimentaram lições duras semelhantes na juventude. Apesar de tal ambiente, havia ênfase nos valores intelectuais na casa de Cyril. Muitas vezes ele era lembrado de seu status de classe média. A situação familiar de Burt mudou significativamente quando Cyril tinha nove anos. Seu pai assumiu o cargo de médico do interior. Até os irmãos de Francis Galton estavam entre seus pacientes! Burt mais tarde lembrou em sua autobiografia que seu pai sempre o inspirou com histórias de pacientes famosos. Ele falou muito sobre Galton como o sucessor de Milton e Darwin.¹ 

     Mais tarde, ele teve a oportunidade de conhecer Galton pessoalmente. Quando Burt pegou emprestada a publicação de Galton sobre Inquiries into Human Faculty da biblioteca da escola, ele descobriu com entusiasmo que foi publicada em 1883, o ano em que Cyril nasceu. A partir desse momento, Burt passou a se identificar fortemente com Galton e seus pontos de vista. Isso, combinado com a forte pressão de seu pai, levou Cyril às paredes da Universidade de Oxford, onde se formou com honras em 1907. Mesmo durante seus estudos, Burt encontrou defensores da eugenia que reforçaram suas ideias. Ele alcançou com sucesso o prestigiado cargo de Professor de Psicologia Experimental na Universidade de Liverpool.² 

     Seu primeiro trabalho acadêmico intitulado Experimental Tests of General Intelligence foi publicado em 1909.³ Emparelhado com as experiências da infância de Burt, definiu um curso para todo o seu futuro trabalhar. Seu maior reconhecimento veio de pesquisas realizadas com gêmeos. Os resultados sugeriram uma natureza hereditária da inteligência e corresponderam perfeitamente às expectativas dos defensores da eugenia. Em seu trabalho, Burt repetidamente alcançou resultados sugerindo até 80% de influência de fatores hereditários no desenvolvimento da inteligência. 

     A esta altura, certos leitores menos familiarizados com a metodologia dos estudos psicológicos merecem alguns esclarecimentos a respeito das pesquisas sobre a herança da inteligência. Pesquisar a herança da inteligência significa que pretendemos responder até que ponto o desenvolvimento da inteligência depende de fatores genéticos e até que ponto depende do ambiente em que vivemos. Os pesquisadores foram abençoados com uma excelente ferramenta puramente natural – gêmeos idênticos. Gêmeos idênticos sempre têm composição genética 100% idêntica.⁴ Gêmeos idênticos criados separadamente apresentam uma oportunidade única de pesquisa. Se a inteligência deles for semelhante após serem criados em ambientes diferentes, teríamos base para supor que a inteligência é influenciada por fatores genéticos. Se for significativamente diferente, é mais provável que aceitemos que o ambiente influencia.⁵ 

     O resultado da maioria das pesquisas e teorias de Burt apontou claramente para a hereditariedade como o principal fator de influência da inteligência e foi recebido com ampla aceitação. Como um renomado estudioso e especialista nas décadas de 1930 e 40, Burt tornou-se conselheiro do governo e se comprometeu a introduzir um sistema de educação conhecido como plano 11 Plus. Este sistema destinava-se a administrar testes de inteligência a crianças de 11 anos, organizando-os em um dos três níveis de aprendizagem. Assim, o pequeno percentil superior de crianças de 11 anos, que obtiveram as notas mais altas, ganhou acesso quase automaticamente às escolas de elite. A maioria restante foi empurrada para escolas inferiores e praticamente não teve chance de progredir para instituições de elite ou mais avançadas no futuro. Hoje sabemos que as diferenças de desenvolvimento em crianças de 11 anos não podem prever com precisão o potencial futuro. É comum que as crianças que se desenvolvem em um ritmo mais lento nessa idade acelerem rapidamente seu aprendizado e suas capacidades intelectuais em uma idade um pouco mais avançada. No entanto, essas crianças, no sistema co-fundado por Burt, nunca tiveram chance. Esse sistema foi rigorosamente implementado na Inglaterra e no País de Gales e durou mais de uma geração inteira. 

     Os pensamentos de Burt foram tão influentes que um renomado pesquisador de inteligência, Arthur Jensen, da Universidade da Califórnia, sugeriu em um artigo publicado na Harvard Educational Review em 1969 que a hipótese da inteligência depender da hereditariedade racial poderia explicar as falhas de programas que lutam contra para abordar a lacuna educacional entre os grupos minoritários (na época descritos como minorias raciais) nos EUA. Essa afirmação foi recebida com ampla aprovação de outros estudiosos e pesquisadores. ⁶ 

     A necessidade de adoração e as tentativas implacáveis ​​de Cyril Burt de escalar o topo da montanha da fama tornaram-se óbvias durante um evento específico raramente mencionado nos registros oficiais. Seu comportamento durante as discussões era tal que Burt tentava vencer a qualquer custo, nem sempre aderindo às regras comuns do debate honesto; isso resultou em seus amigos mais jovens dando-lhe um apelido zombeteiro de 'o velho delinquente'. No final da década de 1930, ocorreu um pequeno desentendimento com Charles Spearman. (Spearman é considerado hoje como o pesquisador de inteligência mais influente daquela época.) Burt escreveu em uma nota de rodapé de seu artigo em 1937 que foi o primeiro a sugerir o uso de uma equação específica para análise fatorial⁷ durante seu trabalho em 1909. Enquanto isso, Spearman, que já estava aposentado na época, ainda estava vigilante e escreveu uma carta pessoal diretamente para Burt afirmando que foi ele quem descobriu a equação, e lembrou que a compartilhou com Burt alguns meses antes da publicação do trabalho. Burt pediu desculpas a Spearman, mas esse evento foi o início das crescentes tentativas de Burt de reescrever a história da análise fatorial, destacando seu papel em sua criação e minimizando a contribuição de Spearman no desenvolvimento desse método estatístico.⁸ 

     Mais tarde, Burt perguntou a Hans J. Eysenck, na época um de seus melhores alunos, pela ajuda em seu artigo dedicado à análise fatorial. Burt escreveu o texto enquanto Eysenck deveria cuidar dos cálculos. “Burt ... me mostrou o papel que ele havia escrito sob nossos nomes comuns e achei muito bom. Fiquei bastante surpreso quando finalmente apareceu no British Journal of Educational Psychology em 1939 apenas com meu nome no topo e com muitas mudanças no texto elogiando Cyril Burt.”⁹ 

     Após a morte de Spearman em 1945, a campanha de autopromoção de Burt cresceu. em força. Ele explorou sua posição como editor do British Journal of Statistical Psychology. Ele publicou muitos de seus próprios artigos lá, nos quais enfatizou sua própria importância no desenvolvimento dos fundamentos da psicologia estatística e minimizou o envolvimento de Spearman. Além disso, ele não hesitou em publicar artigos em seu jornal que o retratavam de maneira muito positiva. Alguns podem argumentar que isso é aceitável para o editor de uma revista, mas, na realidade, os artigos foram escritos pelo próprio Burt, mas publicados sob o nome de outra pessoa. Um grande exemplo é uma aclamação de louvor dedicada a Cyril Burt, que apareceu em 1954 e foi assinada por Jaques Lafitte, um psicólogo francês que estava muito familiarizado com as realizações de Burt e que, anos depois, nunca existiu de fato. 

     Apesar dessas invenções, poucos psicólogos suspeitaram de Burt, mas nenhum deles declarou publicamente suas dúvidas. As contribuições de Burt para a psicologia matemática, para o desenvolvimento de métodos estatísticos e para as teorias da psicologia estatística eram tão amplamente conhecidas que tais detalhes minuciosos podem ter parecido mesquinhos e de pouca importância para serem discutidos publicamente. Além disso, sua reputação foi reforçada pelo título de cavaleiro que lhe foi concedido em 1946. No entanto, nuvens negras se formavam lentamente no horizonte de sua carreira. O primeiro ataque ao sistema 11+ e seus métodos de pesquisa de inteligência apareceu logo após sua aposentadoria em 1950. Burt's respondeu em 1955 a essas alegações publicando suas descobertas de pesquisas sobre gêmeos no campo da inteligência hereditária - um dos estudos mais vergonhosos em toda a história da psicologia.¹⁰ 

     A publicação dessas descobertas foi uma resposta especificamente destinada a responder às acusações de Brian Simon, professor da Universidade de Leicester, e de Alice Heim, psicóloga da Universidade de Cambridge. Simon, um ex-professor, afirmou que o sistema “11 plus” discriminava crianças superdotadas que se desenvolveram mais tarde do que seus colegas por toda a vida. Ele também afirmou que essa discriminação foi feita usando métodos questionáveis ​​baseados em testes de baixa qualidade. Heim criticou o modelo de inteligência de Spearman e questionou as suposições de Burt sobre a herança da inteligência, defendendo a abordagem de Binet, que acreditava que o desenvolvimento da inteligência pode ser influenciado externamente. 

     Nas visões de Burt, às quais ele era profundamente devotado, foram atacadas novamente no início dos anos 1960. O psicólogo John McLeish veio com a crítica mais contundente. Em seu livro The Science of Behavior,¹¹ ele questionou toda a tradição de Spearman de medir a inteligência. Os ataques se intensificaram com o tempo. Por meio de várias publicações, Burt defendeu ferozmente suas opiniões; o mais importante foi outro estudo sobre gêmeos em 1966.¹² 

     Até então, os estudos de Burt sobre gêmeos não levantavam suspeitas significativas, mesmo que suas correlações fossem maiores do que quaisquer outras encontradas em estudos semelhantes. Eles não diferiram o suficiente de outras pesquisas para provocar suspeitas. O artigo de 1966 demonstrou as relações entre posição social e inteligência com base na pesquisa de Burt sobre gêmeos monozigóticos criados separadamente, mas seguindo carreiras muito diferentes e vivendo em ambientes sociais diferentes. Ninguém foi capaz de fazer tal pesquisa antes simplesmente devido à logística de tal empreendimento: é muito difícil encontrar uma amostra grande o suficiente de gêmeos criados separados, muito menos uma amostra grande o suficiente de gêmeos separados, criados separados e fazendo trabalhos diferentes , e vivendo em diferentes níveis da escala socioeconômica. 

     As primeiras dúvidas começaram a aparecer. Sandra Scarr-Salapatek, da Universidade da Califórnia, chamou a atenção para o fato de que os conjuntos de dados de Burt pareciam um pouco estranhos. Ela pediu que ele explicasse seus procedimentos, mas nunca recebeu uma resposta satisfatória. Burt nunca apresentou um único estudo de caso detalhado dos gêmeos que analisou, embora pesquisadores que trabalhavam nas mesmas áreas, como Newman, Freeman e Holzinger, o fizessem. Quando outros pesquisadores escreveram para Burt com pedidos de dados mais detalhados, eles foram educadamente, mas firmemente encaminhados para documentos pouco conhecidos das décadas de 1910 e 20, ou receberam desculpas sobre a inacessibilidade dos dados e a incapacidade de decodificá-los. Quando o sociólogo Christopher Jencks solicitou diretamente a lista de cinquenta e três pares de gêmeos e seus resultados de QI com avaliação e descrições de suas circunstâncias de trabalho, ele recebeu (após várias semanas) uma lista com todos os dados apagados, exceto aqueles que Jencks especificamente solicitou. Até esta data, este é o documento mais detalhado disponível sobre o trabalho de pesquisa de Burt. 

     Essas dúvidas não foram suficientes para mudar o reconhecimento, prestígio ou adoração de Burt. Escrevemos sobre eles aqui porque fornecem um pano de fundo para os eventos que ocorreram após sua morte. Em 1972, os artigos de Burt caíram nas mãos de Leon Kamin, um psicólogo da Universidade de Princeton. Kamin notou imediatamente discrepâncias internas nas obras publicadas; ele apontou a falta de dados sistemáticos básicos, como o sexo das crianças estudadas, tipo de testes usados, etc. Kamin também notou que na publicação de Burt de 1939, ele havia afirmado que os métodos e procedimentos que ele usou “foram descritos de forma mais detalhes nas dissertações dos pesquisadores envolvidos no estudo” ou que a metodologia poderia ser encontrada em alguma outra dissertação inacessível. Em outro artigo de 1943, Burt afirmou que uma coleção abrangente de fontes e cálculos, juntamente com gráficos e tabelas detalhados, poderia ser encontrada nas obras de J. Maver, realizadas no laboratório de psicologia da University College London (UCL). Na realidade, Kamin descobriu que tais trabalhos ou dissertações ou quaisquer outras publicações sobre esse tema nunca foram enviados, apresentados ou arquivados na UCL. Descobriu-se que havia muitos outros elos perdidos semelhantes nos trabalhos de Burt.¹³ 

     O fato mais importante que Kamin trouxe à atenção do público foi sobre os coeficientes de correlação que Burt supostamente obteve e descreveu em três publicações diferentes dedicadas a gêmeos. Apesar de ter comparado grupos de gêmeos de tamanhos diferentes, os coeficientes resultantes foram precisos até três casas decimais! Eles acabaram sendo 0,771 para gêmeos separados e 0,994 para gêmeos criados juntos. Quem já fez cálculos estatísticos sabe que obter um resultado idêntico duas vezes já é extremamente raro. Três resultados idênticos parecem ser virtualmente impossíveis. Mas três conjuntos de resultados idênticos de pesquisas realizadas em diferentes populações, ao longo de muitos anos? Isso deve ter sido um milagre! Quando agora levamos em consideração as imprecisões na documentação, obras inexistentes e falta de vontade de permitir o acesso a dados brutos, podemos ser levados a acreditar (como fizeram pesquisadores de todo o mundo) que não foi um milagre; foi uma fraude comum. Mesmo os adoradores de Burt que correram para defender seu ídolo, como Arthur Jensen, logo foram forçados a enfrentar fatos duros e aceitar as evidências disponíveis contra Burt. Jensen viajou para a Grã-Bretanha especificamente para coletar uma antologia da pesquisa de Burt, a fim de compilar e publicar uma visão geral de seu trabalho. Para sua surpresa, ele encontrou 20 casos de conjuntos idênticos de valores de coeficientes de correlação nos artigos de Burt... vinte conjuntos idênticos de números em pesquisas realizadas em diferentes populações. Isso era impossível de explicar. Apesar desse fato, Jensen e Eysenck concluíram que os dados fabricados eram apenas um pano de fundo destinado a ilustrar os fundamentos teóricos mais importantes da genética qualitativa. Eles presumiram que os “erros” nas obras de Burt eram resultado da falta de atenção do estudioso de 72 anos, e não de um engano consciente e planejado. 

     Kamin, no entanto, apoiou teimosamente sua teoria de que Burt enganou intencionalmente a comunidade científica. Ele analisou cada peça do trabalho disponível de Burt e concluiu que já havia começado a forjar e fabricar todos os seus dados em 1909! As controvérsias em torno da figura monumental de Burt cresceram e acabaram levando à decisão de estudar todos os seus registros e anotações originais. Descobriu-se que, logo após sua morte, alguns dos amigos íntimos de Burt levaram vários de seus livros e outros documentos de sua casa. Deixaram, no entanto, seis grandes arcas, anteriormente utilizadas para guardar chá, cheias de documentos, notas e cálculos. O dono da casa, sem saber o que fazer com os restos mortais, pediu conselhos aos amigos de Burt. Eles sugeriram queimar as provas, que foi exatamente o que o proprietário fez. Parece que é assim que a história põe fim às futuras disputas sobre o trabalho do pesquisador, envolvendo Burt com uma névoa de incerteza, ou melhor ainda – com a fumaça da queima de documentos. Isso teria acontecido, se não fosse por um jornalista especialmente curioso... 

     Em outubro de 1976, um artigo apareceu no The Sunday Times escrito por Oliver Gillie, que, após investigar minuciosamente a situação de Burt, concluiu que mulheres como M. Howard e J. Conway Nunca existiu! Quem eram essas mulheres a quem Gillie dedicou tanta atenção? Eles foram os coautores das obras mais importantes de Burt. Eles supostamente estavam liderando a pesquisa em seu nome. Quando Burt era o editor do Journal of Statistical Psychology, ambas as mulheres escreveram resenhas e artigos elogiando as realizações de Burt, frequentemente reconhecendo sua engenhosidade inovadora e criticando ferozmente seus oponentes. Depois que Burt deixou o cargo de editora da revista, as resenhas e os artigos de ambas as mulheres pararam de aparecer. Esses fatos consolidaram o caso. Sir Cyril Burt passou a ser reconhecido pela comunidade acadêmica como uma fraude que na verdade falsificou a maioria de seus dados, embora Jensen e Eysenck tenham permanecido fiéis à sua opinião sobre a “falta de atenção” do antigo pesquisador. 

     Em 1978, surgiu uma análise acadêmica séria das obras de Burt, conduzida por Donald D. Dorfman, da Universidade de Iowa. Ele analisou minuciosamente a publicação de Burt de 1961 sobre as ligações entre inteligência e avanço na escada socioeconômica e concluiu que os dados de Burt eram... falsificados. Dorfman mostrou que Burt, em vez de obter novos dados, simplesmente copiou números de tabelas antigas que publicou em 1926 em um artigo dedicado ao aconselhamento de carreira. E como Burt conseguiu os números para este artigo de orientação profissional? Bem, ele os copiou de um censo populacional publicado em 1921.¹⁴ 

     O melhor epílogo da história de Burt foi apresentado por Thomas F. Gieryn e Anne Figert em seu artigo: “Scientists Protect their Cognitive Authority: The Status Degradation Ceremony of Sir Cyril Burt. ”¹⁵ A análise deles mostrou a cerimônia da degradação de Burt, a cerimônia que não ocorreu no esplendor do salão de baile do Palácio de Buckingham, a cerimônia que não foi acompanhada pelos sons do hino nacional, nem nunca contou com a presença da Rainha ou do Lord Chamberlain. Procedeu lentamente e seu foco não era tanto Cyril Burt, mas sim toda a autoridade do mundo da ciência. Como observou Leslie Hearnshaw, biógrafa de Burt: 

     O dano mais sério causado por Burt é o descrédito que ele trouxe à profissão de psicólogo. Ele minou a fé do público, lentamente e laboriosamente construída, e ainda longe de ser alcançada no trabalho dos psicólogos. É um contratempo que pode levar algum tempo para ser reparado. Os psicólogos acharão mais difícil obter credibilidade para suas descobertas. Burt gerou uma aura de desconfiança, que pode afetar o apoio público, financeiro e moral, por algum tempo. Desconfiança desse tipo é difícil de dissipar.¹⁶

     Gieryn e Figert mostraram que a comunidade acadêmica fez muito para minimizar o impacto das ações de Burt em sua imagem social e profissional. Na época de sua morte em 1971, Burt foi colocado no grupo de elite dos principais pesquisadores de psicologia. Dez anos depois, seus colegas o excluíram de suas fileiras e o despojaram de seu status acadêmico e reconhecimento científico. Segundo a opinião dos autores, a degradação de Burt teve oito estágios distintos. O primeiro estágio foi chamado de ignorância fingida, quando os pesquisadores tiveram que confrontar sua imagem de Burt com os fatos devastadores pela primeira vez. A etapa seguinte foi a negação das acusações – uma tentativa de salvar uma figura já histórica e a busca de explicações para o fluxo contínuo de fatos descobertos e inconvenientes. À medida que as acusações se acumulavam, a maioria dos psicólogos teve que escolher um lado: culpado ou inocente? Esta etapa foi chamada de empilhamento do júri. A fase da delação premiada: culpado de acusações menores foi o momento em que Eysenck, Jensen e alguns outros defensores do acusado tentaram diminuir o peso das acusações de maneiras que já conhecemos. Este estágio mudou rapidamente para a fase de culpar os acusadores. Seu aparecimento foi inevitável, pois o ataque a Burt foi um ataque a todos os defensores do conceito de inteligência hereditária. Nessa batalha entre os defensores das origens hereditárias e ambientais da inteligência, prevaleceu a boa e velha razão. Ambos os lados concordaram que evidências empíricas e sólidas obtidas de estudos confiáveis ​​eram necessárias para resolver a diferença de opiniões. 

     No entanto, antes que o julgamento final fosse feito no caso de Burt, a psicologia teve que lidar com mais um estágio chamado perpetrador como vítima. Esta foi a última tentativa dos defensores de Burt. Apareceu quando ficou óbvio para todos que Burt era culpado das acusações de fraude feitas contra ele. Seus defensores apontavam uma longa vida repleta de crises que impediam Burt de realizar uma pesquisa adequada. Eles alegaram que eventos como seu casamento desmoronando em 1932, a perda de muitos materiais de pesquisa durante o bombardeio de Londres em 1941, uma doença que incluía perda auditiva e, de fato, muitos outros infortúnios críticos semelhantes levaram Burt a acreditar que ele era um doente. e pessoa atormentada. Seus defensores tentaram convencer o público de que as ações de Burt não eram de uma pessoa racional, mas sim de uma vítima desesperada. Não tentaram, entretanto, reabilitar sua condição de pesquisador. De certa forma, aquela etapa finalmente convenceu a todos de que Sir Cyril Burt deixou de ser tratado como um digno representante da comunidade científica – o julgamento foi finalmente feito. A sétima etapa foi assim chamada, a sentença: banir Burt. Gieryn e Figert terminam sua descrição da cerimônia de degradação com a recuperação da autoridade da ciência: “a verdade será revelada”. Na opinião deles, a cerimônia tinha dois objetivos: excluir Burt dos reinos da ciência e reconstruir a confiança do público nos psicólogos como estudiosos. Na sua opinião, ambos os objetivos foram alcançados. Duas questões são especialmente intrigantes na história de Burt. Uma delas está ligada diretamente ao próprio Burt, a segunda está ligada a conclusões da história de Burt. Jensen foi o primeiro a focar na primeira questão. Por que Burt, apesar de sua inteligência inegável, conhecimento no campo da estatística e escrutínio incrível (refletido nas resenhas que escreveu para autores de trabalhos de pesquisa em psicologia estatística e matemática), falsificou seus resultados de forma tão incompetente? Afinal, ele devia saber que obter 20 coeficientes de correlação idênticos era tão improvável que, mais cedo ou mais tarde, chamaria a atenção de alguém. Jensen e Eysenck atribuíram isso à falta de atenção de Burt, à idade avançada e à forma como ele tratava os dados da pesquisa como de importância secundária em relação às suas teorias. No entanto, quando lemos as primeiras publicações sobre Burt, ficamos convencidos de que ele obteve muita satisfação com a fraude e o engano. Existem alguns criminosos para quem os resultados dos crimes não são tão importantes quanto as emoções experimentadas ao cometê-los. Esse tipo de motivação é característico de muitos ladrões, como batedores de carteira, que costumam roubar itens completamente inúteis ou sem valor apenas pela emoção associada a isso. Ladrões também podem ser encontrados entre este grupo; eles aceitam os riscos de navegar por vários sistemas de segurança apenas para roubar um item cujo valor é desproporcional aos riscos necessários para obtê-lo. Muitos hackers de computador também trabalham dessa forma, entretidos apenas com o fato de invadir um sistema de computador e depois não fazer uso dele.¹⁷ Agora imagine Burt com um sorriso maroto, inserindo os mesmos conjuntos de dados em outro artigo e pensando: “Quando esse grupo de perdedores vai perceber que estou fazendo eles de tolos? Como ficarão seus rostos quando finalmente descobrirem sobre isso?” E se ele fosse intencionalmente provocador para demonstrar o que este livro realmente foca: apontar a ineficácia dos sistemas de controle de qualidade da ciência? 

     Quanto mais fatos aprendíamos ao estudar sua biografia completa e suas lembranças autobiográficas, mais víamos um perfil psicológico totalmente diferente. Cyril Burt era um indivíduo dominador com uma necessidade muito forte de sucesso e fama, provavelmente uma personalidade bastante narcisista. Ele desprezava mais do que respeitava as pessoas, embora fosse inteligente o suficiente para não mostrar isso a elas abertamente. Ele certamente estava ciente de que seus métodos de engano eram bastante simplistas. O fato de ele não ter feito um esforço concentrado para trapacear usando métodos mais sofisticados veio provavelmente de seu desprezo oculto pelos outros. Hoje imaginamos Burt com uma expressão amarga no rosto, furioso com mais um ataque contra ele. Aquele que persistentemente inseriu os mesmos conjuntos de coeficientes “calculados” a partir de dados que nunca existiram, derivados de estudos que nunca foram feitos, e de suas palavras, que ressoam em sua cabeça, mas nunca foram ditas em voz alta: “Esse bando de idiotas é estúpido demais para descobrir até mesmo uma coisa tão simples como coeficientes de correlação idênticos em todos os meus artigos. Eles não valem o esforço.” O segundo dilema reside no fato de não sabermos se devemos ficar satisfeitos com o fim da história de Burt ou se devemos soar o alarme por causa disso. Por um lado, o fato de toda a obra de Burt ter sido radiografada e suas fraudes desmascaradas deveria ser reconfortante, pois demonstra a eficiência dos mecanismos de auto limpeza dentro da comunidade científica. No entanto, estamos apavorados com as conclusões tiradas dessa história de uma fraude que se tornou um nobre. Não esqueçamos que durante toda a vida de Burt, apenas alguns estudiosos tiveram a coragem de confrontá-lo diretamente. Dúvidas ou perguntas raramente apareciam. Se Burt tivesse feito um pequeno esforço ao falsificar seus resultados, se tivesse fabricado mais alguns documentos ou se não tivesse exagerado com as pessoas fictícias que sustentavam suas convicções narcísicas, hoje ele provavelmente seria mencionado em todos os livros de psicologia, ao lado de Spearman, Binet ou Yerkes. Seu conceito de inteligência hereditária continuaria a ser ensinado em todas as universidades, pelo menos como um conceito importante e significativo na história da evolução das diferenças entre os indivíduos. É possível que houvesse mais figuras como Burt na psicologia? Talvez alguns deles fossem mais completamente enganosos? Ou talvez eles ainda estejam trabalhando e estejam bem de vida? Existe alguma chance de identificá-los, especialmente quando eles têm uma posição muito inferior à de Burt e talvez o foco de sua pesquisa não seja tão controverso ou tão sensível quanto a inteligência? O capítulo seguinte nos ajudará a encontrar as respostas para essas perguntas.

domingo, 29 de janeiro de 2023

Review: Wittgenstein e a crítica ao "psicologismo" de Freud.

O livro "Wittgenstein on Freud and Frazer" de Frank Cioffi oferece uma visão única sobre a crítica feita por Ludwig Wittgenstein às teorias de Sigmund Freud e James Frazer. Em particular, Wittgenstein argumenta que Freud e Frazer compartilham uma metodologia problemática, conhecida como "psicologismo", na qual eles tentam explicar o comportamento humano e as crenças em termos de estados mentais subjacentes. Este artigo se concentra na crítica de Wittgenstein à metodologia de Freud e como ela afeta a compreensão da mente humana. 

O livro traz uma crítica séria sobre a obra de Sigmund Freud e sua teoria psicanalítica. Um dos principais problemas apontados é a falta de evidência científica para respaldar suas teorias. Por exemplo, a existência de estruturas mentais inconscientes não pode ser comprovada de forma objetiva e muitos argumentam que as teorias de Freud são baseadas em suposições subjetivas e não em fatos comprovados. Além disso, sua técnica de interpretação dos sonhos também tem sido alvo de críticas, pois é considerado baseado em inferências subjetivas.

Outra crítica é a questão dos métodos de tratamento de Freud, como a psicanálise, que são considerados por alguns como ineficazes e prolongados demais. Alguns também criticam a falta de transparência na coleta de dados e a falta de clareza na interpretação dos resultados, o que dificulta a avaliação da eficácia das teorias de Freud. E olha, isso é apenas o começo.

Pontos abordados com mais profundidade:

  1. O uso da linguagem: Freud usa a linguagem de forma imprecisa e confusa, o que dificulta a compreensão e a avaliação de suas teorias. Wittgenstein também critica o uso de metáforas e analogias por Freud que, segundo ele, obscurecem a verdadeira natureza das coisas.

  2. A falta de evidência científica: Freud não se baseia em fatos objetivos, mas sim em suposições subjetivas. Wittgenstein também critica a falta de evidência empírica para apoiar as teorias de Freud.

  3. A natureza da mente: Freud tem uma visão equivocada da natureza da mente humana. Wittgenstein acredita que eles exageram a importância de fatores inconscientes e subjetivos, enquanto negligenciam a importância de fatores conscientes e objetivos.

  4. O uso da história:  Freud usa a história de forma imprecisa e forçada para apoiar suas teorias. Freud interpreta eventos históricos de forma tendenciosa e seletiva para confirmar suas próprias suposições.

  5. O uso do método: Freud, que, segundo ele, é baseado em inferências subjetivas e não em fatos objetivos. Wittgenstein também critica o uso de técnicas de interpretação por Freud, que, segundo ele, não são confiáveis e não podem ser verificadas.

  6. As teorias de gênero e sexualidade: Freud se baseia em estereótipos e preconceitos. Wittgenstein acredita são baseadas em estereótipos e preconceitos. Ele argumenta que eles não levam em consideração a diversidade de orientações sexuais e identidades de gênero.

  7.  O uso da psicologia: Freud é baseada em uma visão equivocada da psicologia.Wittgenstein argumenta que ele não leva em consideração as diferenças entre psicologia e outras ciências, como a fisiologia e a filosofia.

  8. A natureza da religião:Freud tem uma visão equivocada da natureza da religião. Wittgenstein acredita que eles exageram a importância de fatores inconscientes e subjetivos na religião, enquanto negligenciam a importância de fatores conscientes e objetivos.

  9.  O uso da antropologia:Freud usa a antropologia de forma imprecisa e forçada para apoiar suas teorias. Wittgenstein acredita que ele interpreta dados antropológicos de forma tendenciosa e seletiva para confirmar suas próprias suposições.

  10. A validade das teorias: Freud não são verdadeiras, mas sim meras opiniões subjetivas.Wittgenstein acredita que elas não podem ser verificadas ou comprovadas, e, portanto, não podem ser consideradas científicas.

  11. O uso da terapia: a Psicanálise não é eficaz, e que ela é baseada em suposições subjetivas e não em fatos objetivos. Wittgenstein também acredita que o uso de técnicas de interpretação por Freud não são confiáveis e não podem ser verificadas.


Review: Freud, biologiste de l'esprit




"Freud, biologiste de l'esprit"

Crítica à psicanálise: O livro também fornece uma crítica ao método psicanalítico de Freud, argumentando que ele é baseado em pressupostos equivocados e não pode ser comprovado cientificamente.

Abaixo estao as 10 principais críticas abordadas no livro:


Falhas metodológicas na psicanálise: O livro "Freud, Biologiste de l'espirit: au-dela de lá legende psychanalytique" argumenta que a psicanálise de Freud é baseada em pressupostos metodológicos equivocados, como a falta de objetividade e a falta de verificabilidade científica.

Falta de evidência científica: O livro afirma que não há evidência científica suficiente para apoiar a validade da teoria psicanalítica de Freud e seus métodos terapêuticos.

Críticas de outros cientistas: O livro discute as críticas de outros cientistas e pesquisadores da área da saúde mental à teoria e prática da psicanálise, afirmando que elas reforçam a falta de validade científica da teoria.

Alternativas científicas: O livro também discute as alternativas científicas à teoria psicanalítica de Freud, incluindo terapias comportamentais e cognitivas, que são baseadas em evidências científicas e têm um histórico comprovado de eficácia.

Impacto da psicanálise na psicologia e saúde mental: O livro analisa como a teoria psicanalítica de Freud e seus métodos terapêuticos têm afetado a forma como a psicologia e a saúdie mental são compreendidas e tratadas. Ele argumenta que a falta de validade científica da psicanálise tem afetado negativamente o campo.

Críticas ao conceito de inconsciente: O livro critica o conceito de inconsciente proposto por Freud, argumentando que não é um conceito cientificamente verificável e que há pouca evidência empírica para apoiá-lo.

Críticas ao complexo de Édipo: O livro também critica a teoria do complexo de Édipo, que sugere que todas as pessoas têm desejos sexuais inconscientes em relação aos seus pais. O livro argumenta que essa teoria não é sustentada por evidência científica e não é um conceito universalmente aplicável.

Críticas ao conceito de repressão: O livro também critica o conceito de repressão, que sugere que as pessoas reprimem inconscientemente lembranças ou desejos traumáticos. O livro argumenta que esse conceito também não é sustentado por evidência

Críticas a técnica terapêutica da associação livre: O livro também critica a técnica terapêutica da associação livre, que é uma parte importante do processo psicanalítico. O livro argumenta que essa técnica não é um método confiável para desvendar lembranças ou desejos reprimidos e é baseada em pressupostos equivocados sobre a mente humana.

Influência na cultura popular e sociedade: O livro também examina a influência da teoria psicanalítica e métodos de Freud na cultura popular e na sociedade em geral, argumentando que ela teve um impacto negativo na compreensão e abordagem da saúde mental e comportamento humano.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Tradução : Science and Pseudoscience in Clinical Psychology com comentários sobre a Psicanálise , TCC e DBT

 




"Science and Pseudoscience in Clinical Psychology" é um livro que examina os fundamentos da psicologia clínica e discute como diferenciar entre a ciência e a pseudociência na prática clínica. O livro aborda tópicos como a importância da avaliação científica, a evidência baseada em terapias, os problemas éticos e legais associados à pseudociência e as implicações para a prática clínica. 


A diferença entre ciência e pseudociência


Um dos principais objetivos do livro é distinguir as reivindicações científicas das pseudocientíficas na psicologia clínica. Para alcançar esse objetivo, no entanto, primeiro precisamos delimitar as principais diferenças entre os programas de pesquisa científica e pseudocientífica. Como um de nós já observou em outro lugar (Lilienfeld, 1998), a ciência provavelmente difere da pseudociência em grau, e não em espécie. A ciência e a pseudociência podem ser pensadas como conceitos Roschianos (Rosch, 1973) ou abertos (Meehl & Golden, 1982; Pap, 1953) que possuem limites intrinsecamente nebulosos e uma lista indefinidamente estendível de indicadores. No entanto, a nebulosidade dessas categorias não significa que as distinções entre ciência e pseudociência são fictícias ou inteiramente arbitrárias. Como o psicofísico S. S. Stevens observou, o fato de que a fronteira precisa entre dia e noite é indistinta não implica que dia e noite não possam ser diferenciados de forma significativa (ver Leahey & Leahey, 1983). Nessa perspectiva, as pseudociências podem ser conceitualizadas como exibindo uma lista falível, mas, no entanto, útil, de indicadores ou "sinais de alerta". Quanto mais esses sinais de alerta uma disciplina exibe, mais ela começa a cruzar a linha divisória nebulosa que separa a ciência da pseudociência (ver também Herbert et al., 2000).Alguns filósofos da ciência (por exemplo, Bunge, 1984) e psicólogos (por exemplo, Ruscio, 2001) já apresentaram algumas das características mais frequentes da pseudociência. Entre essas características estão as seguintes (para discussões adicionais, veja Herbert et al., 2000; Hines, 1988; Lilienfeld, 1998):

1- Hipóteses ad hoc
Do ponto de vista popperiano ou neo-popperiano (veja Popper, 1959), afirmações que nunca poderiam ser, em princípio, falsificadas são inscientíficas (mas veja McNally, 2003, para uma crítica das noções popperianas). A invocação repetida de hipóteses ad hoc para explicar resultados negativos é uma tática comum entre os defensores de afirmações pseudocientíficas. Além disso, em muitas pseudociências, as hipóteses ad hoc são simplesmente "coladas" para tapar buracos na teoria em questão. Quando levado ao extremo, as hipóteses ad hoc podem fornecer uma barreira impenetrável contra a refutação potencial. Por exemplo, alguns defensores da desensibilização e reprocessamento por movimentos oculares (EMDR) argumentaram que os resultados negativos sobre o EMDR provavelmente são atribuíveis a baixos níveis de fidelidade ao procedimento de tratamento (veja Rosen, Glasgow, Moore, & Barrera, Capítulo 9, este volume). Mas eles geralmente foram inconsistentes na sua aplicação do conceito de fidelidade ao tratamento (Rosen, 1999).
É crucial enfatizar que a invocação de hipóteses ad hoc diante de evidências negativas às vezes é uma estratégia legítima na ciência. Em programas de pesquisa científica, no entanto, esses manejos tendem a aumentar o conteúdo da teoria, o poder preditivo ou ambos (veja Lakatos, 1978; Meehl, 1990).

[Na psicanálise, as hipóteses ad hoc são usadas para explicar fenômenos que não podem ser explicados pelas teorias existentes. Por exemplo, um paciente pode apresentar sintomas de ansiedade sem nenhum motivo aparente. Um analista poderia usar uma hipótese ad hoc para explicar esse comportamento, sugerindo que o paciente está reprimindo algum trauma ou conflito inconsciente. Essa hipótese seria usada para orientar a terapia, mas não seria considerada uma teoria científica comprovada.]
[A teoria da terapia cognitiva clássica e a DBT não dependem de hipóteses ad hoc. A teoria cognitiva é baseada na premissa de que os pensamentos e crenças disfuncionais desempenham um papel importante na manutenção de problemas de saúde mental e que mudar esses pensamentos e crenças pode melhorar o bem-estar do indivíduo. A DBT é baseada na teoria de que os comportamentos disfuncionais são mantidos por meio de uma interação entre fatores biológicos, psicológicos e ambientais.]

2- Ausência de auto-correção . 
Programas de pesquisa científica não são necessariamente distinguidos de programas de pesquisa pseudocientífica na verossimilhança de suas afirmações, pois os defensores de ambos os programas frequentemente avançam afirmações incorretas. No entanto, a longo prazo, a maioria dos programas de pesquisa científica tende a eliminar esses erros, enquanto a maioria dos programas de pesquisa pseudocientífica não o faz. Consequentemente, a estagnação intelectual é uma marca registrada da maioria dos programas de pesquisa pseudocientífica (Ruscio, 2001). Por exemplo, a astrologia mudou muito pouco nos últimos 2.500 anos (Hines, 1988).

[Um exemplo disso é a teoria freudiana da repressão. Segundo essa teoria, os indivíduos reprimem traumas ou conflitos inconscientes, causando sintomas psicológicos. No entanto, essa teoria nunca foi comprovada cientificamente e muitos críticos argumentam que não há evidências concretas para suportar a existência da repressão inconsciente. Embora essa teoria tenha sido amplamente aceita entre os psicanalistas, ela nunca foi submetida a testes rigorosos e não foi corrigida quando evidências contrárias surgiram.]

[ A teoria da terapia cognitiva clássica e a DBT não afirmam que os indivíduos não são capazes de se auto-corrigir. Pelo contrário, essas terapias visam ajudar as pessoas a desenvolver habilidades para identificar e mudar seus pensamentos e comportamentos disfuncionais de forma independente, sem depender exclusivamente do terapeuta. A terapia cognitiva clássica, por exemplo, ensina técnicas para que os pacientes possam monitorar e modificar seus pensamentos negativos. Já a DBT, além de ensinar técnicas para controlar as emoções, também enfatiza a importância de se sentir capaz e responsável pelas próprias mudanças.]

3- Evasão da revisão por pares. 
Relacionado a isso, muitos defensores da pseudociência evitam submeter seu trabalho ao processo de revisão por pares, que muitas vezes pode ser humilhante para o ego (Ruscio, 2001; veja também Gardner, 1957, para ilustrações). Em alguns casos, eles podem fazê-lo com base na alegação de que o processo de revisão por pares é intrinsecamente prejudicado contra achados ou afirmações que contradizem paradigmas bem estabelecidos (por exemplo, veja Callahan, 2001a, para uma ilustração envolvendo a Terapia de Campo de Pensamento; veja também Rosen, Glasgow, Moore e Barrera, capítulo 9, deste volume). Em outros casos, eles podem evitar o processo de revisão por pares com base na alegação de que suas afirmações não podem ser avaliadas adequadamente usando métodos científicos padrão.Ainda que o processo de revisão por pares não seja perfeito, ele ainda é a melhor mecânica de auto-correção na ciência e ajuda os pesquisadores a identificar erros em seus raciocínios, metodologias e análises. Ao permanecer largamente isolado do processo de revisão por pares, alguns defensores da pseudociência perdem uma oportunidade valiosa de obter feedback corretivo de colegas informados. 

[Um exemplo disso é a teoria de Melanie Klein sobre a relação entre mãe e filho. Segundo essa teoria, as relações precoces entre mãe e filho têm um impacto significativo no desenvolvimento da personalidade do indivíduo. No entanto, essa teoria não foi submetida à revisão por pares, ou seja, não foi avaliada por outros especialistas na área. Isso significa que suas conclusões não foram testadas de forma adequada e não foram submetidas a críticas externas.]

[Bem, eu não posso dizer que existe "evasão da revisão por pares" na teoria da terapia cognitiva clássica ou DBT, mas posso dizer que as teorias passam por processos rigorosos de revisão científica antes de serem aceitas e utilizadas. Eu poderia criar uma teoria de que o mundo é governado por sapos alienígenas, mas eu duvido que ela passaria pela revisão por pares (rsrs).
Agora sério: é importante lembrar que as teorias são constantemente revistas e atualizadas com base em novos estudos e pesquisas, para garantir que elas sejam baseadas em evidências científicas sólidas e eficazes na prática clínica. Então, não é uma questão de evasão, mas sim de buscar sempre a excelência e a atualização.]

4- Ênfase na confirmação em vez da refutação. 
O brilhante físico Richard Feynman (1985) afirmou que a essência da ciência é se dobrar para provar-se errado. Bartley (1962) também afirmou que a ciência, quando é no seu melhor, envolve a maximização da crítica construtiva. Idealmente, os cientistas submetem suas afirmações preciosas a um risco grave de refutação (Meehl, 1978; veja também Ruscio, 2001). Em contraste, os pseudocientistas tendem a buscar apenas evidências confirmatórias para suas afirmações. Como um defensor determinado pode encontrar pelo menos alguma evidência de apoio para praticamente qualquer afirmação (Popper, 1959), essa estratégia de testar hipóteses de confirmação não é uma maneira eficiente de eliminar erros em sua rede de crenças.
Além disso, como Bunge (1967) observou, a maioria das pseudociências consegue reinterpretar resultados negativos ou anômalos como corroborações de suas afirmações (veja Herbert et al., 2000). Por exemplo, os defensores da percepção extrasensorial (ESP) às vezes interpretam casos isolados de desempenho pior que a chance em tarefas parapsicológicas (conhecido como "psi faltando") como evidência de ESP (Gilovich, 1991; Hines, 1988).

[Um exemplo disso é a teoria de Carl Jung sobre a personalidade. Segundo essa teoria, existem arquétipos universais que influenciam o comportamento humano, como o "anima" feminina e o "animus" masculino. Muitos pesquisadores na área da psicanálise aceitaram essa teoria sem questioná-la adequadamente, e não houve esforços significativos para refutá-la. Isso se deve ao fato de que essa teoria se encaixa com as expectativas e crenças existentes dentro da comunidade psicanalítica, e não foi submetida a testes rigorosos para se comprovar ou refutar.] 

[É importante notar que em ambas as teorias, tanto na terapia cognitiva clássica quanto na DBT, há um esforço para testar e avaliar hipóteses e suposições, com o objetivo de refutá-las ou confirmá-las. Isso é importante para garantir que as teorias sejam baseadas em evidências científicas sólidas e eficazes na prática clínica.
No entanto, é possível que alguns terapeutas ou pesquisadores possam ter uma tendência para procurar confirmação em vez de refutação, devido a vieses cognitivos naturais. Como tal, é importante que os terapeutas e pesquisadores sejam conscientes desse viese e façam esforços para minimizá-lo, lembrando que o obstáculo é o homem, não as teorias e isso pode invalidar o processo terapêutico.
A terapia cognitiva clássica e a DBT são baseadas em evidências científicas, e essa é a razão pela qual elas são utilizadas com sucesso na prática clínica. No entanto, é importante ser crítico e questionar as suposições e hipóteses para garantir que elas são baseadas em evidências científicas sólidas e não apenas confirmando o que é já conhecido.]

5. Carga da prova invertida
Como mencionado anteriormente, a carga da prova na ciência recai sobre a pessoa que faz uma afirmação, e não sobre o crítico. Os defensores da pseudociência frequentemente desrespeitam este princípio e, em vez disso, exigem que os céticos demonstrem além de qualquer dúvida razoável que uma afirmação (por exemplo, uma afirmação sobre a eficácia de uma técnica terapêutica novela) é falsa. Este erro é semelhante à falácia ad ignorantium do lógico (ou seja, o argumento da ignorância) - o erro de assumir que uma afirmação é provável ser correta apenas porque não há evidência convincente contra ela (Shermer, 1997). Por exemplo, alguns defensores de objetos voadores não identificados (UFOs) insistiram que os céticos expliquem cada relatório não explicado de um evento anômalo no céu (Hines, 1988; Sagan, 1995a). Mas, como é essencialmente impossível provar um negativo universal, esta tática coloca incorretamente a carga da prova sobre o cético em vez dos afirmantes.

[Um exemplo disso é a teoria da transferência na psicanálise. Segundo essa teoria, os pacientes transferirão seus conflitos inconscientes para o analista durante a terapia, causando reações emocionais e comportamentais. Embora essa teoria seja amplamente aceita na psicanálise, ela não foi comprovada cientificamente e não foi submetida a testes rigorosos. Portanto, é considerada como verdadeira sem ter que ser comprovada. Isso significa que qualquer evidência contrária à teoria da transferência precisa ser explicada de forma apropriada, enquanto a teoria em si é considerada verdadeira sem necessidade de prova.]

[Não há evidências de que a teoria da terapia cognitiva clássica e DBT sejam baseadas na "Carga da prova invertida" e não se espera que as hipóteses e suposições sejam aceitas sem serem questionadas e testadas com base em evidências científicas.]

6.Ausencia de conectividade.
Ao contrário de muitos programas de pesquisa científica, os programas de pesquisa pseudocientíficos tendem a faltar "conectividade" com outras disciplinas científicas (Bunge, 1983; Stanovich, 2012). Em outras palavras, as pseudociências muitas vezes se propõem a criar paradigmas inteiramente novos a partir do nada, em vez de construir sobre paradigmas existentes. Ao fazê-lo, elas muitas vezes negligenciam princípios científicos bem estabelecidos ou conhecimentos científicos difíceis de serem obtidos. Por exemplo, muitos defensores da ESP argumentam que é um processo físico genuíno (embora até agora não detectado) de percepção, mesmo que os casos relatados de ESP violam quase todas as principais leis de sinais físicos (por exemplo, a ESP supostamente opera com a mesma força de milhares de milhas de distância quanto de alguns pés de distância). Embora os cientistas devam permanecer abertos à possibilidade de que um paradigma inteiramente novo tenha sucesso em derrubar todos os paradigmas preexistentes, eles devem insistir em padrões extremamente elevados de evidência antes de chegar a essa conclusão. Esse ditame se alinha às perspectivas bayesianas sobre a ciência, que estabelecem que a plausibilidade a priori deve ser considerada ao avaliar a probabilidade das teorias científicas (Lilienfeld, 2011; Wagenmakers, Wetzels, Boorsbom, & van der Maas, 2011).

[Um exemplo disso é a teoria de Sigmund Freud sobre a sexualidade infantil. Segundo essa teoria, as experiências sexuais precoces têm um impacto significativo no desenvolvimento da personalidade do indivíduo. No entanto, essa teoria não está conectada com outras teorias ou pesquisas na área da psicologia, como a neurociência ou a psicologia evolutiva. Isso significa que essa teoria não foi testada ou avaliada em relação a outras teorias ou pesquisas na área, e não foi integrada a uma compreensão mais ampla do desenvolvimento humano.]

[Não existe "ausência de conectividade" na teoria da terapia cognitiva clássica e no DBT. Ambas as abordagens são baseadas em evidências científicas e se concentram em estabelecer ligações entre pensamentos, emoções e comportamentos, e como essas ligações afetam a saúde mental e o bem-estar das pessoas. A terapia cognitiva clássica se concentra em identificar e modificar pensamentos disfuncionais e automáticos que podem estar contribuindo para problemas de saúde mental. DBT, por outro lado, também se concentra na regulação emocional e habilidades interpessoais. Ambas as abordagens buscam estabelecer conexões e ligações entre diferentes aspectos da vida das pessoas para melhorar sua saúde mental e bem-estar.]



7. Sobrepeso de evidência testimonial e anedótica. 
A evidência testimonial e anedótica pode ser bastante útil nos estágios iniciais da investigação científica. No entanto, essa evidência é quase sempre muito mais útil no contexto de descoberta (ou seja, geração de hipóteses) do que no contexto de justificação (ou seja, teste de hipóteses; veja Reichenbach, 1938). Os defensores de afirmações pseudocientíficas frequentemente invocam relatórios de casos selecionados (ex: "Este tratamento claramente funcionou para a pessoa X, porque a pessoa X melhorou significativamente após o tratamento") como meio de fornecer evidências conclusivas para essas afirmações. Por exemplo, os defensores de determinados tratamentos (por exemplo, secretina, dietas sem glúten, terapia de quelação) para o transtorno do espectro autista (veja Waschbusch e Waxmonsky, Capítulo 13, deste volume) muitas vezes apontam para relatórios de casos não controlados de melhora como evidência de suporte (Offit, 2010).
Como observou Gilovich (1991), os relatórios de casos quase nunca fornecem evidências suficientes para uma afirmação, embora frequentemente forneçam evidências necessárias para essa afirmação. Por exemplo, se uma nova forma de psicoterapia é eficaz, é certamente esperado que haja pelo menos alguns relatórios de casos positivos de melhora. Mas esses relatórios de casos não fornecem evidências adequadas de que a melhora foi atribuída à psicoterapia, pois essa melhora poderia ter sido produzida por uma série de outras influências (por exemplo, efeitos placebo, regressão à média, remissão espontânea ou maturação; veja Cook e Campbell, 1979; Lilienfeld, Ritschel, Lynn, Cautin e Latzman, 2013).

[O sobrepeso de evidência testimonial e anedótica é um problema que ocorre na psicanálise, quando as teorias são baseadas principalmente em relatos de pacientes e histórias anedóticas, em vez de evidências empíricas. Um exemplo disso é a teoria da repressão de Sigmund Freud. Segundo essa teoria, os indivíduos reprimem os pensamentos e lembranças dolorosos para proteger a mente consciente, isso pode causar problemas psicológicos. Essa teoria é baseada principalmente em relatos de pacientes de Freud e histórias anedóticas, sem evidência empírica adequada para apoiá-la. Isso significa que essa teoria não foi testada ou avaliada por meio de experimentos científicos rigorosos, e não foi comprovada por meio de evidências objetivas.]

[A terapia cognitiva clássica e a DBT são baseadas em evidências científicas, e as técnicas são frequentemente testadas em estudos controlados antes de serem consideradas eficazes. Então, ao invés de confiar em histórias de "amigo de um amigo" ou relatos de experiências pessoais, preferemos nos basear em dados sólidos e estatísticas para avaliar a eficácia dessas abordagens.]

8. Uso de linguagem obscurantista. Se Muitos defensores da pseudociência usam jargão imponente ou altamente técnico em um esforço para fornecer às suas disciplinas as aparências superficiais da ciência (veja van Rillaer, 1991, para uma discussão sobre "estratégias de dissimulação" na pseudociência). Essa linguagem pode ser convincente para indivíduos desconhecidos com as bases científicas das afirmações em questão e, portanto, pode dar a essas afirmações um imprimatur de legitimidade científica indevido.
Por exemplo, o desenvolvedor do EMDR explicou a eficácia deste tratamento da seguinte forma (veja também Rosen, Glasgow, Moore e Barrera, Capítulo 9, deste volume); 
 [As] valências dos receptores neurais (potencial sináptico) das respectivas redes neurais, que armazenam separadamente várias informações de platô e níveis de informações adaptativas, são representadas pelas letras Z a A. Hipoteticamente, a rede de alvo de alta valência (Z) não pode se conectar com as informações mais adaptativas, que estão armazenadas nas redes com valência menor. Isso é, o potencial sináptico é diferente para cada nível de afeto mantido nas várias redes neurais... 
A teoria é que, quando o sistema de processamento é catalisado em EMDR, a valência dos receptores é deslocada para baixo para que eles sejam capazes de se conectar com os receptores das redes neurais com valências progressivamente menores.

[Um exemplo disso é a teoria de Jacques Lacan, um psicanalista francês, sobre o eu e o Outro. Ele usa um linguajar muito complexo e metafórico para descrever essa teoria, que muitas vezes é difícil de ser compreendido pelos leitores não familiarizados com sua obra. Alguns críticos argumentam que essa linguagem obscurantista é usada para esconder a falta de fundamentação e evidência para suas teorias. Isso significa que as teorias de Lacan podem ser consideradas como difíceis de serem compreendidas e avaliadas, devido a sua linguagem complexa e metafórica (Lacanes para os íntimos).]

[Não há "uso de linguagem obscurantista" na teoria da terapia cognitiva clássica e no DBT. Ambas as abordagens são baseadas em evidências científicas e usam uma linguagem clara e concisa para se comunicar. No entanto, às vezes, é possível que alguns termos técnicos possam ser usados ​​que possam ser desconhecidos para algumas pessoas, mas isso não significa necessariamente que sejam "obscuros". A DBT pode ter algumas expressões engraçadas como "Mindfulness é como andar de bicicleta, você tem que praticar todos os dias para não esquecer como fazer" mas isso não significa que seja uma linguagem obscurantista, e sim uma forma de tornar a abordagem mais acessível e compreensível.]


9. Ausência de condições limite.
A maioria das teorias científicas bem comprovadas possui condições limite, ou seja, limites bem articulados sob os quais os, limites bem articulados sob as quais os fenômenos previstos se aplicam e não se aplicam. Em contraste, muitos ou a maioria dos fenômenos pseudocientíficos são supostamente operacionais em uma gama extremamente ampla de condições. Como observado por Hines (1988, 2001), uma característica frequente das psicoterapias marginais é que elas são aparentemente eficazes para quase todos os transtornos, independentemente de sua etiologia. Por exemplo, alguns defensores da Terapia do Campo de Pensamento (veja Rosen, Glasgow, Moore & Barrera, Capítulo 9, este volume) propuseram que essa terapia é benéfica para praticamente todos os transtornos mentais. Além disso, o desenvolvedor deste tratamento propôs que é eficaz não apenas para adultos, mas também para "cavalos, cães, gatos, bebês e crianças muito jovens" também (Callahan, 2001b, p. 1255).

[Lacan: a teoria de Lacan sobre o eu e o Outro é frequentemente criticada por não estabelecer claramente as condições em que seus conceitos são válidos. 

Sigmund Freud: a teoria de Freud sobre a sexualidade infantil é frequentemente criticada por não estabelecer claramente as condições em que seus conceitos são válidos. 

Melanie Klein: a teoria de Melanie Klein sobre a posição depressiva infantil é frequentemente criticada por não estabelecer claramente as condições em que seus conceitos são válidos. ]

[Não há ausência de "condições limite" na teoria da terapia cognitiva clássica e no DBT. Ambas as abordagens estabelecem claramente as condições e os limites do tratamento, incluindo metas e objetivos, expectativas de compromisso e responsabilidade dos pacientes, e protocolos de segurança. Porém... "Se você acha que terapia cognitiva clássica e DBT não tem limites, você nunca tentou explicar o conceito de 'distorção cognitiva' para alguém que acabou de acordar" brincadeiras a parte : é claro que essas abordagens possuem limites e condições específicas para serem seguidas.]



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